Pesquisa nacional da MATRIA analisa o que eleitores brasileiros sabem e pensam sobre políticas de gênero, direitos das mulheres e autoidentificação em 2026

Pesquisa nacional analisa opiniões dos eleitores sobre políticas de gênero e direitos das mulheres (2026)

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A MATRIA apresenta a II Pesquisa Nacional de Opinião sobre políticas de gênero e direitos das mulheres.

Relatório da pesquisa da MATRIA Opiniões dos eleitores brasileiros sobre políticas de gênero e direito das mulheres

O levantamento investiga o que os brasileiros sabem sobre termos centrais do debate sobre identidade de gênero e qual é a posição dos eleitores diante de políticas baseadas em declaração de identidade de gênero quando se trata de acesso a espaços femininos, cotas e intervenções médicas em crianças e adolescentes.

Realizada pela Ágili Pesquisas entre 17 de junho e 2 de julho de 2026, a pesquisa ouviu 1.116 eleitores por meio de entrevistas telefônicas (CATI), em uma amostra representativa do eleitorado nacional. A margem de erro da amostra total é de 3 pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.

1.116 eleitores entrevistados
17 de junho a 2 de julho de 2026
Margem de erro de 3 p.p.
Pesquisa registrada no TSE: BR-05097/2026

O debate sobre identidade de gênero já produz consequências concretas em políticas públicas, legislação, instituições de ensino, sistema prisional, esporte e outros espaços organizados segundo o sexo.

Ao mesmo tempo, os resultados desta pesquisa mostram que existe uma distância importante entre a presença desses temas no debate público e o conhecimento que a população declara ter sobre eles.

Para a MATRIA, produzir esses dados é uma forma de ampliar o debate público e permitir que discussões sobre direitos das mulheres, infância e políticas de gênero sejam analisadas também à luz da opinião da população diretamente afetada por essas políticas.

O que a pesquisa investigou

O questionário foi elaborado para investigar tanto o conhecimento dos eleitores sobre os termos utilizados por ativistas, mídia e governo quanto suas posições diante de situações concretas.

Uma escolha metodológica importante foi evitar, nas perguntas sobre políticas públicas, o uso de expressões que poderiam ser interpretadas de maneiras diferentes pelos entrevistados. Em vez de perguntar, por exemplo, sobre o acesso de “mulheres trans” a determinado espaço, o questionário descreveu diretamente a situação pesquisada, utilizando a expressão “pessoas do sexo masculino que se identificam como mulher”.

A pesquisa também incluiu duas perguntas abertas para avaliar o conhecimento espontâneo dos entrevistados sobre os termos “mulher trans” e “criança trans”, além de perguntas sobre seis políticas específicas:

  • acesso a banheiros femininos;
  • transferência para presídios femininos;
  • participação em categorias esportivas femininas;
  • acesso a cotas eleitorais destinadas às mulheres;
  • acesso a cotas em universidades públicas;
  • uso de bloqueadores de puberdade e hormônios do sexo oposto em crianças e adolescentes.

O conhecimento sobre os termos pesquisados

Um dos resultados importantes da pesquisa diz respeito ao grau de conhecimento dos entrevistados sobre os próprios conceitos presentes no debate.

Quando perguntados, de forma aberta, sobre o que é uma “mulher trans”, apenas 26,6% deram uma definição considerada correta (variações de “homem que se identifica como mulher”). Dentre os demais, 35,3% disseram diretamente que não sabiam a definição de “mulher trans” e 38,1% apresentaram definições classificadas como incorretas ou incompatíveis com o conceito.

Entre os erros, o mais frequente foi inverter os sexos envolvidos no conceito: uma parte substancial dos entrevistados acredita que “mulher trans” é uma pessoa do sexo feminino (que se identifica como homem, que se relaciona com outras mulheres, que se veste “como homem” etc). Isso é especialmente relevante, pois necessariamente interfere na forma como essas pessoas se posicionam em relação ao tema. Se uma pessoa acredita que “mulher trans” é alguém do do sexo feminino, a resposta a perguntas sobre a utilização de banheiros femininos, por exemplo, será potencialmente diferente da que sua resposta caso soubesse que se trata de pessoa do sexo masculino.

No caso de “criança trans”, apenas 9,1% dos entrevistados apresentaram uma definição considerada compatível, enquanto 57,0% disseram diretamente não saber do que se tratava.

O relatório também analisou as diferenças de conhecimento segundo idade, escolaridade, renda, religião e sexo. O conhecimento foi maior entre os entrevistados mais jovens e entre aqueles com ensino superior. No caso de “mulher trans”, por exemplo, 33,6% dos entrevistados com ensino superior deram uma definição considerada correta, contra 23,7% entre aqueles com escolaridade até o ensino médio.

O que os brasileiros pensam sobre as políticas pesquisadas

Depois das perguntas abertas, a pesquisa apresentou situações concretas aos entrevistados. Em vez de utilizar simplesmente a expressão “mulheres trans”, o questionário descreveu as situações como envolvendo “pessoas do sexo masculino que se identificam como mulher”, para evitar que cada entrevistado tivesse uma interpretação diferente do que é “mulher trans”.

Foram investigados seis temas:

  • acesso a banheiros femininos;
  • transferência para presídios femininos;
  • participação em categorias esportivas femininas;
  • cotas eleitorais destinadas às mulheres;
  • cotas em universidades públicas;
  • uso de bloqueadores de puberdade e hormônios do sexo oposto em crianças e adolescentes.

Os resultados mostram maioria contrária às políticas pesquisadas em todos os seis casos:

82,2% rejeitam o acesso a banheiros femininos.

82,9% rejeitam a transferência para presídios femininos.

82,9% rejeitam a participação em categorias esportivas femininas.

70,5% rejeitam o uso da autoidentificação para acesso às cotas eleitorais destinadas às mulheres.

59,2% rejeitam o acesso a cotas em universidades públicas.

E 88,9% rejeitam o uso de bloqueadores de puberdade e hormônios do sexo oposto em crianças e adolescentes que não se reconhecem no sexo de nascimento.

O último resultado é o maior percentual de rejeição entre os seis temas pesquisados. Também é o único em que a discordância total, sem somar a discordância parcial, já ultrapassa 70% dos entrevistados que se posicionaram.

A opinião varia de acordo com o posicionamento político?

A pesquisa mostra algo que é frequentemente perdido quando o debate é apresentado apenas como uma disputa entre esquerda e direita: em diversos temas, a rejeição é majoritária nos dois campos.

Quando os entrevistados são divididos pelo posicionamento político declarado, os resultados são os seguintes:

DireitaSem posicionamentoCentroEsquerda
Banheiros femininos92,1%84,5%79,1%69,6%
Presídios femininos93,3%89,9%80,6%65,6%
Esportes femininos90,5%84,8%84,4%71,9%
Cotas eleitorais84,1%76,3%66,7%59,2%
Cotas universitárias73,4%59,0%63,8%42,1%
Bloqueadores e hormônios em menores92,8%91,3%92,6%77,6%

Há uma diferença clara de intensidade entre esquerda e direita. Mas a distância não significa que a esquerda seja majoritariamente favorável às políticas pesquisadas.

No caso de banheiros femininos, por exemplo, 69,6% dos entrevistados que se declararam de esquerda são contrários ao acesso por pessoas do sexo masculino que se identificam como mulheres. Em presídios, são 65,6%; em esportes femininos, 71,9%; e em cotas eleitorais, 59,2%.

A exceção é o acesso a cotas universitárias: nesse caso, a rejeição entre os entrevistados de esquerda fica em 42,1%, abaixo da maioria.

E há um resultado particularmente importante: o maior grupo político da pesquisa não é esquerda, direita ou centro.

É o grupo que não se identifica com nenhum deles.

32,6% não se identificam com esquerda, direita ou centro

Na pergunta sobre posicionamento político, 32,6% dos entrevistados declararam não ter posicionamento político. É o maior grupo isolado da amostra.

E esse grupo não se comporta como um grupo “neutro” em relação ao tema.

Ao contrário: seus índices de rejeição são elevados e, em vários casos, ficam mais próximos dos observados entre eleitores de direita do que dos registrados entre eleitores de esquerda.

No acesso a banheiros femininos, por exemplo:

  • direita: 92,1% contra;
  • sem posicionamento: 84,5% contra;
  • centro: 79,1% contra;
  • esquerda: 69,6% contra.

Em presídios femininos, são 89,9% entre os sem posicionamento político, contra 93,3% na direita e 65,6% na esquerda.

Em bloqueadores de puberdade e hormônios do sexo oposto para menores, a rejeição chega a 91,3% entre os que não se identificam politicamente — praticamente o mesmo nível registrado entre direita, centro e esquerda, apesar das diferenças existentes nos demais temas.

O resultado chama atenção porque mostra que não se trata apenas de uma questão que divide pessoas que se identificam com campos políticos opostos. Uma parcela muito grande do eleitorado não se reconhece nessa divisão e, ainda assim, manifesta posições bastante definidas sobre as políticas pesquisadas.

E se, em vez de perguntar “esquerda ou direita?”, olharmos para a intenção de voto?

O resultado permanece.

Entre os eleitores que declararam intenção de votar em Lula em 2026, a rejeição é majoritária em cinco dos seis temas:

TemaLulaFlávio BolsonaroDemais candidatos
Banheiros femininos68,2%96,1%92,8%
Presídios femininos67,9%92,3%92,8%
Esportes femininos72,8%92,2%91,7%
Cotas eleitorais51,4%87,3%83,9%
Cotas universitárias39,0%73,5%79,9%
Bloqueadores e hormônios em menores80,1%95,0%92,2%

A diferença entre os grupos é grande em alguns temas, mas o padrão é bastante consistente: mesmo entre os eleitores de Lula, a rejeição é majoritária em banheiros, presídios, esportes, cotas eleitorais e uso de bloqueadores de puberdade e hormônios em menores.

Nas cotas universitárias, o percentual entre eleitores de Lula fica abaixo de 50%.

Já quando o assunto são crianças e adolescentes, a rejeição volta a subir fortemente: 80,1% dos eleitores de Lula são contrários ao uso de bloqueadores de puberdade e hormônios do sexo oposto nos menores descritos na pergunta. Entre eleitores de Flávio Bolsonaro, são 95,0%; entre os eleitores dos demais candidatos, agrupados, 92,2%.

Ou seja: a intensidade da opinião muda bastante conforme o grupo político, mas o padrão não desaparece quando chegamos à esquerda do eleitorado.

O tema mudou pouco em dois anos

Esta é a segunda pesquisa nacional realizada pela MATRIA sobre o tema. A primeira foi publicada em 2024, e parte das perguntas foi repetida em 2026, permitindo comparações nos pontos em que o desenho da pesquisa permaneceu suficientemente semelhante.

Nos três temas diretamente comparáveis — banheiros, presídios e esportes femininos — os resultados permaneceram na mesma faixa de 78% a 83% de rejeição. A variação foi de 0,8 ponto percentual em banheiros, 1,9 ponto em presídios e 4,4 pontos em esportes. O relatório considera as duas primeiras variações dentro da margem de erro combinada e identifica uma leve alta no terceiro indicador.

A pesquisa também identificou uma redução na proporção de entrevistados que conseguiram definir corretamente o termo “mulher trans”: utilizando um critério alinhado ao empregado em 2024, o percentual passou de 39% em 2024 para 26,6% em 2026. O relatório ressalta, entretanto, as limitações inerentes à classificação de respostas abertas.

O levantamento de 2026, portanto, não mostra uma opinião pública que tenha mudado substancialmente nesses três temas entre uma pesquisa e outra.

Baixe o relatório completo

A MATRIA disponibiliza o estudo para consulta pública como parte de seu trabalho de produção e divulgação de dados sobre políticas públicas, direitos das mulheres e os efeitos da substituição do sexo pela identidade de gênero em diferentes áreas da vida social.

Autoidentificação de gênero: opiniões dos eleitores brasileiros