“Os incomodados que se mudem”
Eu não sei quem inventou essa expressão. Dei um google aqui, sem sucesso. Mas, eu gostaria de arriscar o sexo de quem inventou esse ditado popular: foi um homem.
Como eu cheguei a essa conclusão?
Bem, ontem eu estava na academia. Uma academia só para mulheres. Foi por isso que eu a escolhi – eu detesto fazer academia. Lá só tem um banheiro, um vestiário, afinal, é uma academia só para mulheres.
O meu método de fazer academia é o seguinte: Eu entro com os phones já no ouvido, sintonizado em algum podcast que me aqueça a mente para que eu possa suportar as repetições dos exercícios para o corpo. Funciona bem, mas tenho o “prejuízo” de não conversar amenidades com as outras senhorinhas que fazem o circuito comigo (não é uma academia para gostosas, é uma academia para gordinhas e senhorinhas).
Pois bem, como sabemos, desde que assim foi decidido, mulher não é mais uma pessoa do sexo feminino, mas sim um sentimento disponível a qualquer pessoa. E, por isso mesmo, ontem tinha uma pessoa do sexo masculino na academia só para mulheres. Ele estava vestido como manda um figurino. Unhas pintadas, batom na boca, cabelo comprido. “Mais mulher que você”, alguém poderia argumentar, já que eu não estava de batom nem de unhas pintadas (eu estou grávida de 5 meses, mas isso não prova nada, é só uma coisa curiosa que acontece com pessoas com útero).
Mesmo que eu não tivesse notado o tamanho do maxilar da jovem e distinta senhora, eu haveria de notar alguma diferença na parte inferior da sua lycra. Além disso, essa pessoa estava suando um pouco mais do que o normal para mulheres. Nós notamos. Eu e todas as outras que, como eu, não falaram nada.
Embora eu estivesse ouvindo meu podcast e seguindo meu circuito da maneira que sempre fiz, havia ali um desconforto. E um conflito interno: “Puxa vida, por que você está se sentido desconfortável? Ele não está fazendo nada demais, além de fingir que é uma mulher”. É verdade, acho que tá tudo bem eu me sentir um pouco desconfortável para deixar um homem mais confortável, não é mesmo? Não é isso que nós, mulheres, temos feito a vida inteira?
E daí que vamos frequentar o mesmo banheiro? E daí que vamos nos trocar no mesmo vestiário? E daí que eu escolhi essa academia justamente porque ela era “só para mulheres”?
Se eu for falar com a gerência que me senti desconfortável, serei taxada de fóbica e deixarei o moço desconfortável. Não tenho saída.
Aliás, tenho sim, a única saída que nos restou: “as incomodadas que se mudem”.




