
A MATRIA apresenta a verificação de dados Um número sem base estatística: a afirmação de que "90% das pessoas trans estão na prostituição" (2025). O documento examina a origem do número, repetido por veículos de imprensa, dossiês da ANTRA, peças do Ministério Público Federal e um projeto de lei.
A análise conclui que o dado não tem base em pesquisa estatística. Ele se apoia em falas de militantes e em enquetes sem metodologia, e aparece nos dossiês da ANTRA citando os próprios dossiês anteriores.
Por que o dado de 90% das pessoas trans na prostituição não se sustenta
Não há pesquisa com amostra representativa que confirme a proporção de 90% de pessoas trans em situação de prostituição no Brasil. A verificação trata de três pontos: a origem do número, a repetição do mesmo dado ao longo dos anos e o uso de autoridade para encerrar a discussão.
- De onde vem o número: falas em encontros da ANTRA e enquetes em redes sociais
- A repetição do dado nos dossiês de 2018 a 2025
- O apelo à autoridade como argumento
- Pesquisas independentes sobre trabalho e prostituição
- Consequências em reportagens, artigos, políticas públicas e ações judiciais
De onde vem o número de 90%
O primeiro dossiê da ANTRA, de 2018, atribui à associação o levantamento de que 90% da população travesti e transexual usa a prostituição como fonte de renda, sem indicar método ou amostra. A MATRIA localizou a origem em falas de militantes proferidas em encontros nacionais da ANTRA e, depois, em enquetes realizadas em redes sociais, sem especificação das perguntas nem definição do público participante.
Em 2021, a ANTRA apresentou uma enquete com 2.535 participantes voluntários, que responderam cinco perguntas. Um dos itens não mede a proporção de pessoas que se prostituem: registra quantos respondentes acreditam que a estimativa de 90% se mantém. No mesmo dossiê, o texto usa "acreditamos" ao descrever a estimativa de 4% em empregos formais e de 90% na prostituição.
A repetição do mesmo dado nos dossiês
O dossiê de 2019 cita o de 2018 como fonte. O de 2022 repete, na página 47, os mesmos números do de 2021, cuja fonte era o próprio dossiê anterior. O dossiê de 2025 não traz número específico nem referência a fonte, mas mantém a menção a uma quantidade alarmante de pessoas trans identificadas na prostituição.
O apelo à autoridade
A ANTRA apresenta o número como dado de referência e exige que ele seja aceito sem questionamento. Na nota sobre a produção de dados publicada em 2024, a associação sugere que quem contesta seus dados precisaria produzir dados próprios. A verificação aponta que, para refutar um dado, basta mostrar a sua origem, e a origem aqui é um conjunto de falas e enquetes sem método.
Pesquisas independentes sobre trabalho e prostituição
- CEDEC (2021): levantamento em São Paulo com travestis e mulheres trans. A amostra foi selecionada em centros de acolhimento e serviços, por isso não é representativa, mas 34% das pessoas entrevistadas disseram se prostituir às vezes ou com regularidade.
- Projeto Transvida (2022): pesquisa com 147 pessoas trans, na qual a prostituição era a atividade remunerada de 14,3% dos entrevistados. A reportagem não traz detalhes de metodologia.
- IPEDF, Retratos Sociais DF (2021): pesquisa oficial do Distrito Federal, com metodologia do órgão, que indica 78,6% das pessoas trans ocupadas em vínculo formal de trabalho. Os dados não são separados por sexo.
Nenhum desses levantamentos chega a 90%. Eles têm limitações de amostra e de método, mas são mais transparentes que os dossiês da ANTRA, que não informam como o número foi obtido.
Consequências da repetição do dado
O número foi reproduzido em reportagens da Folha de S.Paulo e do G1. Em artigo acadêmico de 2022, a fonte citada é uma entrevista de Bruna Benevides, presidente da ANTRA.
O Ministério Público Federal utilizou dados desse tipo em ação civil pública que pede cotas trans e indenização de R$ 5.000.000,00 por parte do Governo Federal. A peça não apresenta fonte para o número de 90%.
No Legislativo, o Projeto de Lei 960/2023, de autoria da deputada Duda Salabert, reserva 4% das vagas do Sistema Nacional de Emprego para travestis e demais pessoas trans e 4% para pessoas em situação de rua. A justificativa cita dados da ANTRA sobre os 90%.
Conclusão
A afirmação de que 90% das pessoas trans estão na prostituição não tem base em pesquisa com amostra definida e método verificável. Ela se origina em falas e enquetes, é repetida entre dossiês e chega a reportagens, artigos, peças judiciais e projetos de lei. Antes de usar qualquer número sobre a população trans, é preciso verificar a fonte, o método e a amostra.
Este texto integra uma série de análises da MATRIA dedicadas à verificação crítica de dados amplamente utilizados em debates públicos, documentos oficiais e decisões institucionais.
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