
A MATRIA publica o relatório Percepções de Psicólogos sobre a Atuação Clínica em Questões de Gênero, resultado de um levantamento respondido por 129 psicólogos entre 6 e 17 de abril de 2026. A pesquisa investigou formação, preparo técnico, clareza das diretrizes profissionais, autonomia clínica, segurança ética e espaço para o debate científico no atendimento de pessoas que apresentam sofrimento relacionado ao sexo, ao corpo e à identidade.
Por que ouvir os psicólogos
No Brasil, a Resolução CFP nº 1/2018 orienta os psicólogos a reconhecer e legitimar a autodeterminação de gênero. Enquanto isso, revisões de evidências em países como Reino Unido, Suécia e Finlândia levaram a mudanças nas diretrizes de atendimento a crianças e adolescentes. Pouco se sabe, porém, sobre como os próprios psicólogos brasileiros percebem as condições em que exercem essa prática. O levantamento buscou preencher essa lacuna.
Principais resultados
- 91,5% dos participantes não consideram plenamente claras as diretrizes profissionais para a condução desses casos.
- 67,2% dos que atendem ou atenderam esses casos já sentiram insegurança quanto a possíveis implicações éticas ou disciplinares.
- 56,9% afirmam evitar determinados temas ou hipóteses clínicas por receio de repercussões profissionais.
- 69,0% não receberam nenhum treinamento específico sobre o tema durante a formação.
- 70,7% dos que atendem esses casos apontam histórico de traumas, violências ou abuso entre os pacientes.
- Apenas 3,9% consideram que o campo dispõe de base científica sólida.
- 97,7% consideram necessário ampliar o debate científico sobre o tema.
Entre os participantes cujo principal público são crianças e adolescentes, a insegurança ética ou disciplinar chega a 85,7%. Mesmo entre os que adotam a chamada “abordagem afirmativa”, orientação consolidada nas normativas do CFP, segundo a qual o psicólogo deve reconhecer a identidade de gênero declarada pelo paciente como ponto de partida do atendimento, metade relatou essa insegurança.
O que dizem os relatos
Nos relatos livres, quase metade dos participantes descreve dificuldade de questionar ou debater o tema de “identidade de gênero” dentro do campo. Há quem relate ter deixado de atender esses casos por medo de perder o registro profissional, o que reduz o acesso dos pacientes a acompanhamento psicológico. Outros descrevem situações em que conteúdos clínicos relevantes, como experiências de violência sexual, deixam de ser investigados.
Sobre o levantamento
A pesquisa foi realizada por questionário on-line, com divulgação aberta e participação voluntária e anônima. Por não se tratar de uma amostra probabilística, os resultados descrevem as percepções dos participantes e não permitem generalização estatística para toda a categoria. O relatório apresenta a metodologia completa, os dados de cada pergunta, a análise dos relatos e recomendações aos Conselhos de Psicologia.




