Reem Alsalem, relatora especial da ONU

A campanha contra Reem Alsalem no Brasil: documentos circulados por ANTRA e aliados, pressão institucional e a resposta da relatora da ONU

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Antes mesmo de desembarcar no Brasil, a relatora especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, já era alvo de uma intensa campanha de descredibilização. Três documentos circularam entre atores institucionais durante sua visita ao país, uma carta pública foi enviada à relatora pela ANTRA, e, após a viagem, a própria Reem respondeu formalmente acusando a organização de disseminar desinformação e de atuar para inviabilizar interlocuções institucionais. O episódio também lança luz sobre um histórico mais longo de oposição organizada à sua presença no Brasil, um reflexo das tentativas de silenciamento de todas aquelas que discordam de políticas públicas para mullheres baseadas na ideia de “identidade de gênero”.

A visita da Relatora especial da ONU ao Brasil

Na primeira semana de março de 2026, a Relatora Especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, realizou uma visita acadêmica ao Brasil, passando por São Paulo e Brasília na semana do Dia Internacional das Mulheres.

A MATRIA organizou encontros de grupos da sociedade civil com a Relatora em São Paulo, permitindo a mulheres de diversos grupos apresentarem suas pautas a Reem Alsalem (mulheres indígenas, mulheres em situação de prostituição, mulheres lésbicas, mulheres que lutam pela revogação da Lei da Alienação Parental, contra casamento infantil, pedofilia, tráfico infantil e outras).

Em Brasília, Reem Alsalem participou de Palestra na UnB, de Audiência Pública no Senado e teve encontros institucionais com representantes dos três poderes, bem como concedeu entrevistas.

Quem tentou impedir a visita de Reem Alsalem ao Brasil? Documentos, cartas e uma campanha coordenada

Antes mesmo de sua chegada ao Brasil, documentos começaram a circular entre interlocutores institucionais, integrantes do sistema de Justiça, universidades, órgãos públicos e atores do campo dos direitos humanos. O objetivo aparente era alertar sobre supostos riscos políticos e ideológicos associados à presença da relatora no país, questionando sua legitimidade, suas posições e até a adequação de autoridades brasileiras se reunirem com ela.

Os documentos entram-se disponíveis para download:

  1. Relato sobre as visitas não oficiais da relatora da ONU para violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, à América Latina, de 26 de fev de 2026
  2. Relato sobre as visitas não oficiais da relatora da ONU para violência contra mulheres e meninas, Reem Alsalem, à América Latina, versão 2, de 28 de fev de 2026
  3. Relatora da ONU com posicionamentos antigênero visitará STF, Congresso e UnB na semana do 8M“, de 29 fev 2026 – informe produzido por Antra, SPW e NUH/UFMG.

Esses documentos apresentam a relatora de maneira fortemente negativa, enfatizam supostos vínculos ideológicos, questionam a legitimidade de sua visita e têm por objetivo alertar atores institucionais sobre os riscos de estabelecer interlocução com ela.

Para tentar descredibilizar a vinda da Relatora e seus posicionamentos, os documentos deturpam diversos pontos:

  • dizem que a visita acadêmica (modalidade prevista para relatores da ONU) seria “extra oficial” e “privada”;
  • levantam suspeitas sobre a transparência da viagem, sugerindo questionamentos sobre o financiamento da visita;
  • acusam Reem Alsalem de defender “terapias de conversão”;
  • alegam que ela defenderia a exclusão total de pessoas trans dos esportes;
  • tentam constantemente atrelar seu mandato, ações e opiniões a governos conservadores e de extrema direita.

Embora apenas o terceiro documento seja assinado (por Antra, SPW e NUH/UFMG), os metadados do segundo arquivo indicam autoria associada ao nome “marco prado”, conforme propriedades do arquivo compartilhadas com a MATRIA. Pode-se supor que o nome seja o de Marco Aurélio Prado, associado ao Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NuH/UFMG) e à Sexuality Policy Watch (SPW).

Autoria do documento contra Reem Alsalem, por Marco Aurelio Prado
Metadados não equivalem, por si só, a autoria conclusiva. Eles podem, porém, indicar quem criou, editou ou originou um arquivo digital e, neste caso, reforçam a vinculação institucional já explicitamente apresentada no documento.

Além disso, a ANTRA encaminhou uma Carta à Relatora, ainda durante sua visita ao Brasil.

Um padrão que merece atenção

A circulação desses materiais não ocorreu em um vácuo político.

Os mesmos grupos ou atores institucionais envolvidos nesses informes aparecem, em diferentes graus, associados a outros materiais voltados à descredibilização de organizações críticas da identidade de gênero no Brasil — incluindo o chamado “Dossiê MATRIA” e o “Dossiê Fronteiras Borradas”, ambos amplamente divulgados em redes ativistas, bem como da própria Reem Alsalem.

Trata-se de produção sistemática de materiais destinados a enquadrar determinadas vozes femininas como ilegítimas, extremistas ou perigosas para o debate público, frequentemente por meio de associações ideológicas amplas e acusações de alinhamento político.

O episódio de 2026 tampouco foi isolado.

Em 2023, a Relatora tinha visita oficial marcada ao Brasil e esta foi “adiada indefinidamente” poucos dias antes da data marcada, sem qualquer explicação oficial. Posteriormente, contudo, foi divulgado um áudio vazado no qual uma assessora de Cida Gonçalves, então Ministra das Mulheres, admite que o Ministério teria cancelado a visita oficial de Reem Alsalem após representante da ANTRA ter dito à ministra que a relatora seria “transfóbica”.

Quando mecanismos internacionais das Nações Unidas passam a ser alvo de campanhas para restringir sua atuação ou interlocução institucional, a questão deixa de ser apenas política e passa a dizer respeito ao próprio funcionamento do sistema internacional de direitos humanos.

Em sociedades democráticas, especialistas independentes, pesquisadoras, ativistas e representantes institucionais frequentemente sustentam posições divergentes — inclusive em temas altamente sensíveis, como sexo, gênero, infância, esporte, violência e políticas públicas. A discordância é legítima. A crítica também.

Quando o desacordo se transforma em tentativa de isolamento institucional, o risco é que temas complexos deixem de ser discutidos de forma aberta e baseada em evidências, tornando-se reféns de campanhas reputacionais e de polarização política.

O próprio mandato da relatora especial existe justamente para lidar com temas difíceis, controversos e, muitas vezes, desconfortáveis.

A resposta de Reem Alsalem: acusações explícitas de lobby, pressão institucional e desinformação

Em 11 de maio de 2026, Reem Alsalem tornou pública sua resposta à ANTRA, denunciando a campanha coordenada para minar sua visita ao Brasil, pressionar autoridades e disseminar desinformação sobre seu trabalho.

Uma tradução da carta para o português foi feita por Inteligência Artificial e pode ser lida abaixo.

Nessa resposta, Reem Alsalem enfrenta diretamente as alegações presentes nos documentos circulados durante sua visita e na carta enviada pela ANTRA.

Entre outros pontos, a relatora rejeita as caracterizações de que:

  • teria defendido “terapias de conversão”;
  • defenderia exclusão total de pessoas trans dos esportes;
  • teria sido indicada ou legitimada apenas por governos conservadores;
  • promoveria desinformação sobre identidade de gênero;
  • manteria alinhamento político com a extrema direita.

Ao longo do documento, ela responde detalhadamente às críticas, remete a relatórios da ONU, documentos oficiais e posições já publicadas em seu mandato.

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