Com vocabulário novo, faz o de sempre: diz à mulher o que ela pode ou não pode ser.
Texto de Caroline Arcari, associada da MATRIA
Ele tem entre trinta e quarenta anos. Leu Judith Butler em PDF, cita Preciado sem ter terminado, e descobriu há pouco tempo que pode ser um homem melhor do que o pai dele foi. É essa embriaguez de redenção que organiza tudo o que vem depois.
No perfil dele, a bio tem pronomes. No Twitter, ele escreve threads. Ele gosta da palavra “thread” porque sugere paciência pedagógica. Um homem que se dispõe a explicar. Nunca ocorre a ele que explicar a uma mulher o que é ser mulher possa ser, em si, o gesto mais antigo do patriarcado vestido com roupa nova.
Ele faz vídeos. A iluminação é boa, a estante atrás tem os livros certos. Ele fala devagar, como quem tem tempo. E tem mesmo. Ninguém o interrompe. Ele não tem seu tempo jogado no lixo com discussões inúteis sobre o que é ser homem. Ele não tem que perder tempo mudando o caminho pra casa porque tem um cara na rua e ninguém mais. O tempo é dele. O tempo sempre foi dele. É desse tempo sobrando que ele fabrica a paciência com que vai explicar às mulheres o que elas são.
A tese é simples, embora ele apresente como complexa: a definição de mulher não pode ser dada pelas mulheres. Se elas se definem a partir do corpo, da experiência, da menstruação, da maternidade, da vulnerabilidade comum, é essencialismo, é reacionarismo, é atraso. A definição correta tem que vir de fora. Ele dá a definição. Ele corrige. Antes foi o padre, que dizia o que era pecado no corpo dela. Depois foi o médico, que decretava histeria, frigidez, loucura uterina. Foi o legislador, que definia quando ela podia votar, trabalhar, existir juridicamente. Foi o marido, que assinava no lugar dela. O MXG é a última encarnação dessa linhagem. É o mesmo homem, com vocabulário novo, fazendo a mesma coisa: dizer à mulher o que ela pode ou não pode ser.
O MXG não aparece nos posts sobre estupro. Isso é importante notar. Estupro exige escuta, e escuta não dá engajamento. Feminicídio, assédio, disparidade salarial, você não vai encontrá-lo dissertando sobre isso. Mas o que tira ele da cama de manhã é a possibilidade de flagrar uma mulher dizendo algo que ele possa chamar de transfóbico. Aí ele floresce. Aí ele vive.
Ele tem um vocabulário afiado para essas ocasiões: terf, biologicista, essencialista, mal informada, violenta, conservadora. Ele escolhe com cuidado. E a palavra que ele guarda para o golpe final: transfóbica.
Porque transfóbica não é uma palavra qualquer. É uma palavra que funciona como sentença. Quando ele chama uma mulher de transfóbica, ele não está descrevendo uma posição política. Ele está decretando uma condição moral. Transfóbica é a mulher que perdeu o direito de ser ouvida. É a mulher que pode ser bloqueada, cancelada, demitida, expulsa do grupo, retirada do evento, apagada do debate público. E tudo isso virá acompanhado de aplausos, não de vergonha.
Transfóbica é a palavra que autoriza a violência contra a mulher, e faz isso em nome da defesa de uma minoria.
E é por isso que ele usa. Não porque a mulher diante dele odeie pessoas trans. Ela não odeia. Ela apenas quis discutir esporte feminino, presídio feminino, abrigo para mulheres vítimas de violência, dado de saúde, critério de pesquisa científica. Mas ele sabe que, se conseguir colar a palavra nela, o debate acabou.
É a palavra mais barata e mais eficaz do arsenal dele. Barata porque não custa nada provar. Basta afirmar. Eficaz porque transforma qualquer mulher que discorde dele numa inimiga pública. E o MXG sabe disso. Ele sabe exatamente o que está fazendo quando escolhe essa palavra. Ele só não admite, nem para os outros, nem para si mesmo, que o que está fazendo é o que os homens sempre fizeram: encontrar a palavra certa para calar uma mulher que ousou falar.
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