Mulheres em protesto

Livro Trans, de Helen Joyce: uma análise de Cila Santos sobre sexo, gênero e feminismo

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Em artigo para a MATRIA, Cila Santos, do perfil Militância Materna, reflete sobre o livro Trans: Quando a Ideologia Encontra a Realidade e os debates sobre patriarcado, identidade de gênero e direitos das mulheres.

O lançamento brasileiro de Trans: Quando a Ideologia Encontra a Realidade, da jornalista britânica Helen Joyce, reacendeu no Brasil debates sobre sexo, identidade de gênero, feminismo e direitos das mulheres.

A seguir, publicamos um texto de Cila Santos, do perfil Militância Materna. Em uma análise política e histórica, Cila reflete sobre o contexto do livro, o desenvolvimento do conceito de gênero e os conflitos contemporâneos em torno dos direitos das mulheres.

Das conquistas das mulheres à crítica feminista do patriarcado

O século XX, especialmente na sua segunda metade, foi um período de transformação sem precedentes para as mulheres. Acesso crescente à educação superior, entrada em massa no mercado de trabalho, urbanização acelerada, divórcio, contracepção hormonal, e uma esfera pública que, ainda que hostil, estava se tornando tecnicamente acessível a vozes que antes não tinham como circular. Pela primeira vez na história, as condições materiais para uma análise crítica organizada do patriarcado estavam postas.

Mulheres que podiam se falar começaram a se falar. A imprensa, o rádio, a universidade, a televisão criaram pela primeira vez a infraestrutura para que a experiência privada de uma mulher encontrasse a de outra em escala. O que Betty Friedan chamou de “o problema que não tem nome” só pôde ser nomeado porque havia meios para que o nome circulasse. O feminismo não foi uma ideia que apareceu. Foi o que aconteceu quando mulheres ganharam meios de se comunicar e descobrir que o que sofriam sozinhas, outras sofriam também, e que isso não era destino, era um projeto político.

E esse projeto político foi nomeado. É a hegemonia masculina, que passou a ser profundamente desafiada, pela primeira vez em escala, e com vocalidade.

Simone de Beauvoir, em 1949, já havia dado o tom: a condição feminina não é natureza, é produção histórica. Kate Millett sistematizou a dominação masculina como estrutura política, não acidente cultural. Adrienne Rich conceituou a heterossexualidade compulsória como regime político que garante a disponibilidade sexual e doméstica das mulheres para os homens, não como orientação natural. Catharine MacKinnon demonstrou que a subordinação sexual feminina não é efeito colateral do patriarcado: é seu mecanismo central, o campo onde a dominação se reproduz todos os dias. Andrea Dworkin nomeou sem rodeios o que outras ainda diziam com cautela: que a pornografia e a prostituição não são excessos do sistema, são o sistema, a expressão mais direta do que o patriarcado entende por feminilidade, um corpo disponível para uso masculino. Gerda Lerner demonstrou que o patriarcado tem começo datado, não é natureza nem destino, é uma construção com origem rastreável; Maria Mies mostrou que a exploração do corpo e do trabalho das mulheres não é paralela ao capitalismo, é sua fundação, o modelo original sobre o qual toda acumulação se ergueu.

O que mulheres descobrem e evidenciam nesse percurso é claro: o comportamento feminino, que chamamos de feminilidade, que também chamamos de gênero, é uma construção que serve aos homens. Que tem por objetivo sedimentar nossa subalternização e garantir nossa submissão ao projeto de poder masculino. E que às mulheres só restaria uma opção: aboli-lo completamente.

Como o conceito de identidade de gênero se consolidou

Seria ingenuidade da nossa parte, portanto, não considerar que tudo o que veio, e ainda vem, não fosse uma resposta masculina na tentativa de impedir que mulheres se rebelassem contra um sistema tão habilmente estruturado como o patriarcado construído por eles.

Assim, do lado masculino, nos mesmos anos 1950 e 1960, o psicólogo John Money desenvolvia no Johns Hopkins o conceito de identidade de gênero, a ideia de que existe dentro de cada pessoa uma essência masculina ou feminina separada do corpo biológico. Robert Stoller, psiquiatra, consolidava o conceito de identidade de gênero nuclear como dado psíquico primário, independente da anatomia. Harry Benjamin havia sistematizado o transexualismo como categoria médica ainda nos anos 1960, estabelecendo o protocolo de redesignação sexual como resposta terapêutica legítima à discordância entre identidade e corpo. A American Psychiatric Association incluiu o transexualismo no DSM em 1980, institucionalizando a ideia de que existe uma identidade de gênero verdadeira que pode estar em desacordo com o sexo biológico. Esses homens estavam construindo categorias clínicas para administrar corpos que não se conformavam às normas que estavam sendo desveladas na teoria feminista.

Nos anos 1970 e 1980, esse arcabouço migrou da clínica para as ciências sociais. O que era administração de corpos desviantes tornou-se, progressivamente, uma gramática de direitos onde a categoria central não é mais o sexo, a posição material que organiza a opressão, mas o gênero, a identidade, a experiência subjetiva que cada indivíduo declara de si mesmo. Nos anos 1990, Judith Butler publica “Problemas de Gênero” e consolida o backlash: se gênero é construção, então o sujeito “mulher” é instável demais para fundar uma política. A categoria deve ser desconstruída, não a opressão que ela nomeia. O que era crítica ao sistema torna-se crítica à própria possibilidade de nomear as oprimidas. A feminilidade deixa de ser questionada como prisão e passa a ser celebrada como performance, como fluidez, como subversão em si mesma. Butler não nega que o gênero é construção. Nega que isso implique abolição. E é exatamente aí que a disputa pela consciência das mulheres está dada: se a feminilidade é performance que qualquer um pode habitar, ela deixa de ser a ferramenta masculina de dominação e passa a ser uma escolha. O que era prisão vira fantasia, empoderamento, liberdade.

A teoria queer que se seguiu aprofundou esse deslocamento. Eve Kosofsky Sedgwick dissolveu as categorias de sexo e gênero em redes de significado culturalmente contingentes. Paul Preciado propôs o corpo como tecnologia política a ser hackeada, a identidade como prótese, o gênero como protocolo que pode ser reprogramado individualmente. O horizonte deixou de ser a abolição de um sistema de dominação coletiva e passou a ser a multiplicação infinita de identidades individuais. Cada nova identidade declarada como ato de resistência. Cada performance de feminilidade relida como subversão.

Por que Trans, de Helen Joyce, se torna um livro central nesse debate

Quando analisamos todo o percurso histórico do conceito de “gênero” e tudo o que ele contém, conseguimos compreender com muito mais clareza todos os fenômenos correlatos que estamos vivendo há quase 70 anos: os financiamentos brutais, a criação de nichos de mercado que exploram vulnerabilidades artificiais criadas pela própria indústria, o apoio da mídia, a perseguição sistemática e implacável de mulheres, a disputa de consciências. Conseguimos ver todas as engrenagens que homens construíram durante séculos para garantir a sua dominação sobre as mulheres girando e girando de maneira esmagadora. É muito óbvio, muito evidente até, quando recebemos todas as peças que nos permitem montar o quebra-cabeça.

É nesse contexto que o trabalho de Helen Joyce se torna indispensável. “Trans: Quando a Ideologia Encontra a Realidade” não é um livro sobre pessoas trans. É um livro sobre poder: sobre como uma ideologia específica sobre gênero se instalou em tempo recorde nas instituições médicas, jurídicas, educacionais e corporativas do mundo ocidental, e sobre o que foi necessário silenciar para que isso acontecesse.

Joyce faz o que toda boa análise política deve fazer: segue o dinheiro, mapeia os atores, nomeia os interesses. Mostra como organizações com financiamento milionário operaram uma mudança de paradigma sem debate público, sem evidência científica consolidada e sem qualquer consideração pelos efeitos sobre mulheres e crianças. Mostra como a linguagem dos direitos foi instrumentalizada para tornar ilegítima qualquer pergunta sobre o que se estava, concretamente, aprovando. Mostra, em última instância, como o consentimento foi fabricado, e como mulheres foram levadas a defender, em nome da liberdade, um sistema que as mantém presas.

O livro chega ao Brasil num momento em que o debate começa a se tornar possível neste país, em que mulheres que fizeram as perguntas certas pagaram preços altos por isso, e em que a pressão para que o feminismo abdique de sua análise material em nome de uma solidariedade identitária é enorme. Lê-lo é, antes de qualquer coisa, um exercício de recusa: a recusa de aceitar que perguntar quem se beneficia de uma ideia seja uma forma de intolerância.

Sexo, gênero e a disputa política do nosso tempo

O debate sobre sexo e gênero não é uma disputa acadêmica entre teorias concorrentes. É um enfrentamento direto entre mulheres que desmascararam o projeto masculino e homens que não vão abrir mão da sua supremacia. Que esse enfrentamento tome a forma de processos judiciais, cancelamentos, financiamentos bilionários e de perseguição sistemática a mulheres que fazem as perguntas erradas não é acidente. É a resposta de uma estrutura que se sabe ameaçada.

É preciso dizer, no entanto, que a violência nunca foi o instrumento principal do patriarcado. É o instrumento de reserva, a garantia final para quando tudo mais falha. O instrumento principal é outro, mais antigo e mais eficiente: convencer mulheres de que a gaiola é lar, de que as correntes são ornamentos, de que a submissão é escolha. O elefante que passou a vida acorrentado a uma estaca aprende, ainda filhote, que não pode se mover. Quando adulto, a estaca já não é necessária. O elefante ficou. Não porque não possa arrancar a estaca, mas porque ele não se acredita capaz de fazê-lo.

O patriarcado revisita essa estratégia em cada geração com a linguagem disponível. No século XX, quando mulheres começaram a nomear a feminilidade como construção e a recusá-la como projeto político, a resposta não foi apenas reprimi-las, foi algo mais sofisticado: convencê-las de que a feminilidade é identidade, é essência, é liberdade, é até subversão. Que abraçá-la é um ato de autonomia. Que defendê-la é progressismo. Que questionar tudo isso é intolerância.

Mas essa estratégia tem uma vulnerabilidade conhecida: não resiste ao escrutínio. Não resiste a mulheres que leem, comparam, perguntam quem financia, quem decide, quem lucra e quem paga o preço. É por isso que a perseguição a mulheres que fazem essas perguntas é tão sistemática e tão implacável. Não é exagero, não é paranoia. É a estrutura protegendo a estaca. Helen Joyce fez essas perguntas em escala, com método e com coragem. O resultado está aqui hoje disponível para nós.

Sobre a autora

Cila Santos é criadora do perfil Militância Materna e se descreve como “mulher, mãe, feminista, necessariamente nessa ordem”. Escreve sobre feminismo, maternidade, sexo, gênero e direitos das mulheres.

Sobre o livro

Capa do livro "Trans" de Helen Joyce

Publicado originalmente no Reino Unido em 2021 pela editora OneWorld, Trans: When Ideology Meets Reality rapidamente se tornou um best-seller do Sunday Times e foi eleito Livro do Ano por veículos como The Times, The Spectator e The Observer. A autora, Helen Joyce, é jornalista sênior da revista The Economist e ficou conhecida internacionalmente por sua cobertura sobre políticas de identidade de gênero, medicina pediátrica, direitos das mulheres e liberdade de expressão. Ela foi correspondente da revista no Brasil.

Ao longo de 404 páginas, a obra investiga como a ideia de que identidade de gênero é um atributo interno independente do sexo biológico deixou o ambiente acadêmico e passou a influenciar leis, protocolos médicos, políticas corporativas e instituições públicas no mundo anglófono. O livro examina impactos em áreas como esportes femininos, prisões, abrigos para mulheres, educação, linguagem institucional e medicina pediátrica.

Descrito pelo New York Times como “uma resposta inteligente e abrangente” ao rápido avanço dessas ideias no debate liberal contemporâneo, o livro busca responder não apenas o que pensar sobre o tema, mas sobretudo como determinadas mudanças conceituais se consolidaram tão rapidamente e com tão pouco debate público.