Existe uma dificuldade que mulheres em movimentos políticos têm enfrentado com muita coragem mas recebendo muita hostilidade: como dialogar politicamente sem ser capturada politicamente.
Muitas mulheres identificam setores políticos com discursos abertamente hostis à autonomia feminina. O crescimento internacional de movimentos que questionam direitos historicamente conquistados pelas mulheres – inclusive o direito ao voto – torna compreensível o medo de aproximações ou instrumentalizações políticas.
Mas também existe uma frustração profunda com setores que, durante décadas, foram percebidos como espaços de acolhimento das pautas femininas. Muitas mulheres atestam que, ao tentar reorganizar categorias políticas em torno da identidade de gênero, esses setores abandonaram debates ligados ao sexo, à materialidade do corpo feminino e à proteção de direitos historicamente organizados para mulheres enquanto classe sexual.
O sentimento de traição aparece aí: mulheres que ajudaram a construir um campo político passaram a ser descartadas quando suas preocupações deixaram de ser consideradas legítimas. Mas nesse processo, as mulheres começaram a perceber: não foram elas que abandonaram esses espaços políticos. Foram esses espaços que abandonaram as mulheres.
Foram eles que passaram a tratar como secundárias, ultrapassadas ou inconvenientes questões ligadas ao sexo, à maternidade, à infância, à segurança feminina e aos impactos concretos de certas políticas identitárias.
Durante muito tempo, elas permaneceram nesses ambientes tentando “merecer” acolhimento, tentando provar que ainda pertenciam ali. Mas a questão é que esses grupos já não dialogam com elas. Eles fizeram uma escolha. E, por isso, as mulheres não precisam ter medo de sair. Pois enquanto estão ali, estão presas a uma dinâmica antiga e profundamente desgastante: a lógica do “depois a gente vê isso”, “depois a gente resolve”, “agora existem pautas mais importantes”.
Mulheres são convocadas para compor base eleitoral, mobilização militante, defesa pública e sustentação emocional de projetos políticos, mas são tratadas como secundárias quando suas próprias demandas entram em conflito com interesses das estruturas partidárias. A promessa é futura. Primeiro a revolução, depois as mulheres. Primeiro a governabilidade, depois as mulheres. Primeiro a luta “maior”, depois as mulheres. O problema é que esse “depois” nunca chega.
Nos espaços progressistas, mulheres passaram anos ouvindo que suas preocupações eram pequenas demais, identitárias demais, biologizantes demais ou inconvenientes demais diante de agendas consideradas politicamente mais urgentes. Ao mesmo tempo, continuavam sendo a base militante, afetiva e eleitoral desses próprios movimentos. Elas são fundamentais para construir capital político, mas não são escutadas quando suas reivindicações geram atrito interno ou custo simbólico para os homens.
Nesse contexto, surge uma questão: um movimento deve se recusar a conversar com determinados atores políticos mesmo quando esses atores demonstram disposição para ouvir suas pautas? Ou deve dialogar com qualquer grupo institucionalmente relevante sem que isso implique adesão ideológica?
A posição defendida pela MATRIA é a segunda. Conversar não significa apoiar. Apresentar demandas não significa aderir ao conjunto ideológico de quem abre espaço. A lógica é pragmática: falar com quem estiver disposto a ouvir, independentemente do campo político, preservando autonomia e independência organizacional.
As reações mais agressivas a essa estratégia vêm daqueles que empurraram as necessidades das mulheres para depois e, ao perdê-las, insinua que qualquer diálogo institucional significaria “aliança”, “associação” ou adesão a todo o pacote ideológico do interlocutor.
Mas a mesma régua raramente é aplicada aos próprios grupos políticos masculinos dos quais participam. Por exemplo, homens da esquerda negociam, dialogam, fazem alianças estratégicas, compõem com setores divergentes e isso é tratado como “parte do jogo político”. Não existe sobre eles a mesma cobrança permanente de pureza ideológica.
Quando se trata de mulheres, no entanto, a cobrança é disciplinar: ou permanecem completamente alinhadas ao campo político previamente autorizado, ou passam a ser tratadas como suspeitas, “fascistas de gênero”, moralmente contaminadas. Como se mulheres não pudessem atuar politicamente com autonomia estratégica sem “pertencer” a alguém.
Essa lógica, porém, não é exclusiva de um único campo político. Recentemente, setores conservadores também deram demonstrações de desconforto com a autonomia política feminina, ao afirmar que mulheres – especialmente solteiras – votariam “mal” por não acompanharem a orientação de um marido. A mensagem implícita é semelhante: a mulher não é vista como um sujeito político plenamente capaz de formular seus próprios julgamentos, mas como alguém cuja legitimidade dependeria de estar vinculada à autoridade de um homem ou de um grupo.
Em lados opostos do espectro político, o resultado acaba sendo parecido: espera-se que as mulheres sejam politicamente obedientes. Muda o discurso, mudam as justificativas, mas permanece a dificuldade de reconhecer mulheres como agentes políticos autônomos, capazes de dialogar, discordar, negociar e decidir por si mesmas.
Nenhum grupo político age exclusivamente por altruísmo. Todo ator institucional opera por interesses, cálculo político e disputas de poder. Esperar pureza ideológica ou proteção paternal de qualquer campo político talvez seja justamente o erro que muitas mulheres cometeram no passado.
Existe outra reflexão importante: as pessoas esperam primeiro uma enunciação identitária, um rótulo político prévio, para só então decidir se irão ouvir, acolher ou rejeitar alguém. Se um grupo se declara “de esquerda”, automaticamente recebe determinadas projeções. Se é “de direita”, outras. Se é “feminista”, já se pressupõe um conjunto inteiro de posições. Se é casada ou solteira, outros rótulos. Estes passam a funcionar como atalhos morais e ideológicos que dispensam escuta real ou barreiras que impedem o diálogo.
E outra contradição: enquanto parte da direita questiona a própria existência das cotas eleitorais femininas, argumentando que elas feririam o mérito individual, ignoram o contexto histórico que tornou essas ações necessárias. No Brasil, as mulheres só passaram a ter reconhecido o direito de votar e de se candidatar com o Código Eleitoral de 1932. Antes disso, estavam legalmente excluídas da vida política institucional. As cotas não surgiram para substituir o mérito, mas para enfrentar uma desigualdade histórica de acesso à representação política.
Já pelo lado da esquerda, um caminho oposto: em vez de fortalecer as políticas destinadas às mulheres, passou a reinterpretar normas escritas para protegê-las com base no sexo, ampliando seu alcance para incluir categorias não previstas pelo legislador. No caso das cotas eleitorais, por exemplo, a reserva criada para aumentar a participação política das mulheres passou a ser aplicada com base na identidade de gênero por decisão administrativa do Tribunal Superior Eleitoral. Em vez de consolidar um mecanismo de correção de desigualdades históricas enfrentadas pelas mulheres, a política pública deixa de ter como referência a categoria jurídica originalmente prevista na lei e passa a descaracterizar a razão de existencia da lei.
A MATRIA escolheu abrir mão dessa lógica polarizada, porque esses enquadramentos escondem muito mais do que revelam. Não existe obrigação de anunciar previamente “somos isso” ou “somos aquilo” para merecer legitimidade política. Não é necessário declarar-se de esquerda, de direita, feminista ou antifeminista para que a atuação concreta possa ser analisada. São as ações que devem orientar a percepção pública. Quem sentir necessidade de classificar a associação dentro dos próprios esquemas ideológicos é livre para fazê-lo – mas esse não é o eixo organizador da nossa atuação.
O compromisso assumido é outro, é com mulheres e crianças, especialmente diante da destruição causada pelas políticas e práticas que dissolvem as categorias sexuais e da infância. Esse compromisso não depende de fidelidade partidária nem de pertencimento identitário prévio.
Talvez justamente por isso a MATRIA venha sendo cada vez mais procurada, e não menos. Mulheres de diferentes posições políticas, pessoas destransicionadas, pessoas intersexo, homens trans, gays, lésbicas e até pessoas que antes se sentiam completamente isoladas nos procuram enquanto espaço onde consigam falar sem precisar primeiro performar lealdade ideológica a algum campo político específico.
Muitas mulheres estão deixando de buscar aceitação dentro de estruturas políticas já existentes e começando a questionar por que deveriam permanecer leais a grupos que não respondem às suas demandas e que as usam a sua conveniência. E isso altera a dinâmica política, porque rompe com a expectativa histórica de que mulheres permaneçam alinhadas automaticamente a determinados campos ideológicos por medo de exclusão. É por isso que a MATRIA assusta tanto.




