O voto das mulheres tem dono?

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Texto inspirado em reflexões da nossa associada Anne Rammi, postadas nos stories da sua conta de Instagram

“Nenhuma mulher que se respeite deveria desejar ou trabalhar pelo sucesso de um partido que ignora seu sexo.”

Nessas eleições, estamos vendo algo profundamente incômodo acontecer: parte do debate político tem se dirigido às mulheres como se o voto delas não precisasse ser conquistado, apenas cobrado.

Mas quatro anos se passaram desde 2022. Houve tempo para ouvir, dialogar, rever posições, reconhecer conflitos e compreender transformações que ocorreram nos movimentos de mulheres. Isso não aconteceu e mulheres que defendem o sexo como critério para políticas públicas para mulheres seguem ostracizadas pelo governo. 

Ainda assim, parte significativa do campo progressista chega a 2026 repetindo praticamente o mesmo raciocínio das últimas eleições presidenciais: diante do risco representado pelo adversário, caberia novamente às mulheres, independente de como foram tratadas nos últimos quatro anos, “salvar a democracia”. Nessa democracia, aparentemente algumas pessoas têm direito a escolher, e outras têm apenas o dever de obedecer. 

Quando mulheres manifestam dúvidas em relação a certos candidatos, rejeitam as alternativas políticas apresentadas ou dizem que irão votar nulo, por exemplo, elas não são necessariamente despolitizadas ou estão mal informadas. Isso na verdade pode ser o resultado de uma reflexão política profunda sobre suas próprias demandas e a (in)capacidade política de ouví-las. 

A discussão sobre a substituição do marcador sexo por autodeclaração de identidade de gênero esteve presente, nesses quatro anos, dentro dos movimentos feministas e de mulheres, em debates nas universidades, em discussões nos serviços públicos, além de se manifestar na prática nas disputas esportivas, direitos das mulheres presas, estatísticas governamentais, linguagem e políticas públicas.

Esse conflito foi colocado politicamente de forma clara durante quatro anos. Mas boa parte dos que hoje pedem nosso voto finge que isso não está acontecendo. Para mulheres que questionaram políticas de apagamento de seus direitos e leis, esses quatro anos não foram um período de diálogo. Não por falta de tentativa da nossa parte, mas porque ao invés de serem ouvidas, muitas dessas mulheres foram chamadas de intolerantes, reacionárias, transfóbicas, nazistas e fascistas por defenderem direitos constitucionais, a aplicação correta da lei, ou por apontarem extrapolações indevidas e prejudiciais às mulheres, feitas pelo judiciário.

Além disso, tivemos inúmeros casos de mulheres cerceadas em sua liberdade de expressão, vivendo constrangimentos em seus empregos, hostilidade em ambientes acadêmicos e arrastadas para disputas judiciais por falarem sobre sua realidade e seus direitos. Isabella Cêpa foi o caso mais emblemático desse período: uma mulher feminista que precisou acabou recebendo asilo político na Europa, algo inédito desde o final da ditadura militar, por questionar a inclusão de pessoa do sexo masculino na cota eleitoral para mulheres. 

Mulheres eleitas pela sociedade civil para representá-las na 5ª Conferência Nacional de Políticas para Mulheres, as representantes da Aliança LGB e do Raízes Feministas foram hostilizadas por serem críticas à substituição do marcador sexo pela ideia de “identidade de gênero”.

Duas universitárias atentaram contra suas vidas após perseguições reiteradas e duradouras por parte de seus colegas por conta de posições a favor de espaços femininos separados por sexo. As universidades sabiam das perseguições e nada fizeram.

Os políticos acham mesmo razoável passar quatro anos tratando mulheres e os movimentos que as representam como interlocutores ilegítimos e, chegado o período eleitoral, achar que basta dizer que são eleitoras indispensáveis e tudo será esquecido? Nossa sensação é de que nos expulsaram da mesa durante quatro anos e acham que agora é só acenar com a ideia de que somos “importantes” para que nossos votos estejam garantidos. 

Com isso, o que constatamos é que a participação feminina na política é instrumentalizada de forma oportunista: nossa voz é inconveniente, mas nosso voto é necessário. E diante das cobranças de que votar em determinado candidato é uma “obrigação” das mulheres, perguntamos: obrigação por quê? Um partido, governo ou campo político que deseja o voto feminino precisa apresentar razões para recebê-lo. 

A participação feminina na política é instrumentalizada de forma oportunista: nossa voz é inconveniente, mas nosso voto é necessário.

O que escutamos, no entanto, é que nossas reivindicações precisam esperar porque “agora não é o momento, há coisas mais importantes”. E a história das mulheres é atravessada por esse adiamento. Mas quando chega esse “depois”?

A eleição é precisamente um dos momentos nos quais cidadãos possuem maior capacidade de exigir compromissos daqueles que disputam o poder. E ao pedir que mulheres suspendam suas reivindicações durante esse período em nome de um “bem maior” o que se espera é que elas abram mão de suas necessidades precisamente no momento mais importante de falar sobre elas. É uma concepção conveniente de participação democrática que sempre encobre as necessidades das mulheres.

Para além disso, o que notamos é que, em grande medida, os argumentos dirigidos às mulheres lembram, em sua estrutura, mecanismos conhecidos de relacionamento tóxico: “desta vez será diferente”, nos dizem os que nos cobram votar de certa maneira ou de outra. “Eles entenderam o recado”, prometem em nome de quem nunca acenou com qualquer compreensão do que reivindicamos. “Você precisa dar mais uma chance”, “não é hora de pensar apenas naquilo que importa para você”, “se você não fizer isso e algo ruim acontecer, a responsabilidade será sua”.

As etapas desse relacionamento tóxico são bem conhecidas: a tentativa de reconciliação dos candidatos com as mulheres não vem por meio de indicações claras de mudanças, mas sim de promessas vazias que, quando rechaçadas, se transformam em tentativas de chantagem. Quando a chantagem também falha, parte-se para a desqualificação e os ataques. A mulher deixa de ser “indecisa” e passa a ser egoísta, irresponsável, despolitizada ou moralmente suspeita. 

Por isso é importante que todas as mulheres se deem conta de algo: nós não devemos fidelidade a partidos ou candidatos. São os partidos que precisam reconquistar a confiança das mulheres. São os projetos políticos apresentados que devem representar as mulheres e não as mulheres que devem sustentar projetos políticos que não as contemplam.

Nós não somos uma reserva eleitoral disponível para ser mobilizada sempre que alguém declara que a “democracia está em perigo”. Isso vale para esquerda, direita ou qualquer outro campo político. Não votar em um ou outro candidato, ou rejeitar a todos, não transforma nenhuma mulher automaticamente em mais ou menos “democrática”. Pouco democrático é imaginar que determinado grupo possui uma obrigação moral prévia de entregar seu voto a alguém.

Antes de responsabilizar as mulheres por uma eventual derrota eleitoral, todo candidato e campo político deveria se perguntar: o que fizemos para merecer o voto das mulheres? O que nos fez perder o voto delas? Essas perguntas obrigariam partidos, governos, movimentos, intelectuais e meios de comunicação a olharem não apenas para as mulheres como segmento eleitoral, mas para aquilo que eles fizeram quando essas mesmas mulheres tentaram falar e como lidaram com suas reivindicações.

O voto das mulheres precisa ser conquistado. E por isso, quem passou anos menosprezando mulheres cujo discurso não se alinha à sua ideologia política não deveria se surpreender por não cedermos a chantagens de cunho moral no momento das eleições.