Carta aberta de mulheres de esquerda da MATRIA ao presidente Lula

Carta aberta das mulheres de esquerda da MATRIA ao presidente Lula

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Carta aberta das mulheres de esquerda da MATRIA, encaminhada em 7 de novembro de 2026 à Presidência da República e à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (SECOM).

Entre a esperança e a contradição: o voto crítico e a resistência material das mulheres

Saudamos a vitória do presidente Lula. Mas o triunfo nas urnas não isenta o governo da necessidade de se reestruturar e, antes de tudo, de nos ouvir.

Assinam esta carta as mulheres de esquerda da MATRIA que trabalharam pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Fizemos isso individualmente, fora dos canais institucionais da associação, em respeito ao seu caráter suprapartidário. Mobilizamos pessoas, ocupamos as ruas e as redes, participamos de debates e batemos de porta em porta para "virar voto". Defendemos um projeto ancorado na análise material e histórica das contradições que estruturam o país, num momento de avanço da extrema direita e de ofensiva do capital, que se traduz em exploração, violência, especulação, precarização do trabalho e ameaça à soberania nacional. Esse momento exige muito mais de nós do que a celebração nas urnas.

Mas não foi uma campanha fácil. Nas conversas com a população, as críticas ao governo frequentemente coincidiam com as denúncias que fazemos na MATRIA. Quando as pessoas reclamavam das políticas de "identidade de gênero", da imposição ideológica nas instituições e do silenciamento do dissenso, não podíamos dizer que essas preocupações eram inventadas. Sabemos que não são. Muitas de nós enfrentamos hostilidade e desqualificação em nossos próprios partidos, coletivos e grupos de pesquisa por defender direitos ancorados na materialidade do sexo. E, quando perguntavam por que apoiar um governo que não parecia disposto a ouvir essas preocupações, tínhamos dificuldade em responder. Sabíamos que algo maior estava em jogo, mas era nítido o descontentamento da população - fora da bolha militante - com a imposição de políticas identitárias vinculadas ao gênero.

Esta é a contradição que atravessou nossa participação nas eleições: como sustentar um projeto que consideramos essencial quando ele não reconhece a legitimidade de nossas reivindicações?

Nossa crítica é material, não moral. Para nós, a agenda transativista expressa o próprio projeto neoliberal: ao deslocar o foco das condições materiais de vida para a afirmação de identidades individuais, fragmenta a organização coletiva da classe trabalhadora e enfraquece a luta de classes. Por isso disputamos os rumos da esquerda, sem ceder à chantagem do identitarismo. É por isso que a MATRIA existe: se o campo conservador, que critica a autoidentificação sobretudo por razões morais, fosse capaz de defender os direitos das mulheres baseados no sexo, não precisaríamos de uma associação própria. Somos mulheres de esquerda, e não existe "tornar-se de direita" como caminho para recuperar nossa autoridade de dizer o que é uma mulher e quais espaços ocuparemos.

Votamos em Lula como uma aposta estratégica na disputa de rumos. Sabemos que o governo pouco nos ouviu até aqui, e decidimos dar-lhe mais uma oportunidade de fazê-lo. Respeitamos as companheiras que anularam o voto, mas escolhemos marcar posição contra valores que não compartilhamos. Nossos votos no segundo turno fizeram diferença, no entanto não significam anuência irrestrita.

O resultado dessas eleições nos apresentaram a um país polarizado e a uma esquerda fraturada. Não afirmamos que o identitarismo explique, sozinho, o desempenho eleitoral no primeiro turno. Mas ignorar o desgaste gerado pela imposição de falsos consensos e pela hostilidade a quem diverge é um erro que alimenta o descontentamento popular, e o governo precisa ter a coragem de enfrentá-lo. Há pessoas que não se reconhecem mais em certos discursos. Há mulheres que se sentem abandonadas por movimentos que dizem representá-las. Há famílias com dúvidas legítimas sobre políticas públicas que, em vez de respostas, recebem a acusação de preconceito. Tratar toda discordância como extremismo não fortalece a democracia, muito pelo contrário: aprofunda o abismo entre as instituições e a base popular.

Entre os fatores apontados para a vitória, destacou-se o comparecimento de pessoas idosas, e o próprio presidente agradeceu. É provável que muitas só tenham chegado às urnas graças ao trabalho de cuidado feito por mulheres: filhas, esposas, noras. Essas mulheres vêm sendo sistematicamente negligenciadas pela esquerda institucional na última década.

Por isso, exigimos:

  1. Que o Ministério das Mulheres cumpra efetivamente sua função de proteger as mulheres e defender os marcadores de sexo nas políticas públicas.
  2. Garantia de liberdade acadêmica e de debate, sem sanção a quem produz conhecimento a partir da experiência das mulheres como "classe sexual".
  3. Participação estrutural das mulheres nas decisões do país, o que exige que o debate sobre suas necessidades materiais deixe de ser interditado dentro do governo.

Reivindicamos autonomia, o direito inegociável de nomear a nossa realidade e a possibilidade de existir na política sem a ameaça constante do apagamento. Não somos "mulheres cis", "pessoas que gestam", "pessoas que menstruam". Somos MULHERES, seres humanos completos, seres biopsicossociais. Somos a maioria da população brasileira, e nos organizamos historicamente para lutar por libertação e emancipação.

Seguiremos firmes, muitas organizadas em partidos, todas militantes da MATRIA, ao lado de associadas que fizeram outras escolhas eleitorais, porque a práxis democrática se forja na pluralidade, não no falso consenso. Sustentaremos nossas pautas inegociáveis, inclusive quando isso exigir o tensionamento crítico do governo que ajudamos a eleger. Nosso horizonte de transformação permanece, guiado pela materialidade da luta, e não por ingenuidade.

Uma esquerda que reivindica a transformação social precisa, antes de tudo, garantir às mulheres o pleno direito à divergência e à formulação política.

Três punhos cerrados de mulheres erguidos, com o símbolo de Vênus nos dedos, diante de uma estrela vermelha

Nenhuma vitória eleitoral concede a um governo que ajudamos a eleger, o salvo-conduto para nos silenciar.

Veja também

Referências

AGÊNCIA SENADO. Lula é reeleito para quarto mandato de presidente (resultado do segundo turno). 25 out. 2026. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/10/25/lula-e-reeleito-para-quarto-mandato-de-presidente.

VIVA. Lula agradece voto dos idosos que "saíram de casa neste domingo". Silvia Araújo, 25 out. 2026. Disponível em: https://viva.com.br/politica/lula-agradece-voto-dos-idosos-que-sairam-de-casa-neste-domingo.html.

BAHIA NOTÍCIAS. Lula agradece jovens e idosos por reeleição e diz que governará para 215 milhões. Edu Mota, 25 out. 2026. Disponível em: https://www.bahianoticias.com.br/noticia/322949-em-primeiro-discurso-apos-reeleicao-lula-agradece-e-jovens-e-idosos-e-diz-que-governara-para-215-milhoes.