Homicídios envolvendo pessoas trans no Reino Unido Dados e cobertura midiática em contraste

Homicídios envolvendo pessoas trans no Reino Unido: quando a cobertura midiática não acompanha os dados

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Um estudo recente analisou todos os homicídios envolvendo pessoas que se identificam como trans no Reino Unido entre 2000 e 2025, considerando tanto casos em que essas pessoas foram vítimas quanto aqueles em que foram perpetradoras.

O artigo, intitulado Transgender Homicides in Britain, 2000–2025: Victims and Perpetrators, foi publicado em 2026 por Michael Biggs, do Departamento de Sociologia da Universidade de Oxford, e Ace North, do Departamento de Biologia da mesma universidade. A pesquisa se baseia na compilação de todos os casos disponíveis ao longo de 25 anos, com verificação individual em registros jornalísticos e bases existentes, e propõe uma abordagem alternativa para lidar com a ausência de dados confiáveis sobre o tamanho da população trans.

O que os dados mostram

Ao longo desse período, foram identificadas 11 vítimas de homicídio que se declaravam trans. No mesmo intervalo, 20 pessoas que se declaravam trans cometeram homicídios no Reino Unido — sendo que, dessas, cinco só passaram a se identificar dessa forma após o crime.

Um dado relevante diz respeito ao perfil dos perpetradores. Dos 20 indivíduos, 18 eram do sexo masculino ao nascimento (90%). Esse resultado é consistente com o padrão amplamente documentado na criminologia: a violência letal está fortemente concentrada em indivíduos do sexo masculino.

Os autores também analisam a proporção entre vítimas e perpetradores dentro de cada grupo — uma métrica usada como alternativa às taxas tradicionais, já que não há estimativas confiáveis sobre o tamanho da população trans. Nesse recorte, a proporção encontrada para pessoas trans é praticamente idêntica à observada na população em geral e entre homens: cerca de 0,7 vítimas para cada perpetrador.

Isso indica que o padrão de distribuição entre vítimas e autores de homicídio permanece consistente com aquele já conhecido na população masculina. Em outras palavras, homens são mais frequentemente autores de homicídio do que vítimas, independentemente de como se identifiquem.

Já para as mulheres as mulheres, essa proporção é de 2,8, ou seja, entre mulheres, há cerca de 2,8 vezes mais vítimas do que perpetradoras.

Ainda assim, devido ao número reduzido de casos, esse não é o aspecto mais robusto do estudo.

O ponto central: a cobertura da BBC

O resultado mais consistente diz respeito à cobertura midiática.

Ao analisar todas as reportagens da BBC — principal emissora pública do Reino Unido — sobre esses homicídios, os autores encontraram um padrão claro: a emissora publicou aproximadamente 4,5 vezes mais matérias sobre vítimas trans do que sobre perpetradores trans.

Além disso, há uma diferença sistemática na forma como os casos são apresentados.

Quando a pessoa trans é vítima, sua identidade trans é geralmente destacada logo no início da matéria. Quando é perpetradora, essa informação frequentemente não aparece ou surge apenas de forma tardia no texto — e, em alguns casos, não é mencionada.

O estudo não afirma que haja intenção deliberada por parte da mídia. Os próprios autores apontam possíveis explicações institucionais, como diretrizes legais sobre identificação de acusados e dinâmicas próprias do jornalismo. Ainda assim, o padrão observado é consistente: há uma assimetria clara na seleção e na ênfase das informações.

Por que isso importa

Esse tipo de assimetria não é neutro.

Quando a mídia enfatiza exclusivamente vítimas e minimiza ou omite perpetradores, ela produz uma narrativa implícita de que pessoas trans são apenas vítimas de violência e não participam da dinâmica geral da violência — que, em todos os dados criminais, está fortemente associada ao sexo masculino.

Isso tem consequências práticas.

Políticas de segurança deixam de considerar todos os fatores relevantes. Mulheres que levantam preocupações sobre segurança — especialmente em espaços segregados por sexo — passam a ser desconsideradas, frequentemente sob a narrativa de que “não há risco” ou de que tais preocupações seriam infundadas.

Além disso, quando a variável mais consistente na explicação da violência — o sexo masculino — é obscurecida, a capacidade de formular políticas públicas eficazes diminui.

O marcador mais relevante para políticas públicas continua sendo o sexo, especialmente no que diz respeito à proteção de mulheres.

Por isso, discussões sobre segurança em espaços íntimos femininos não podem prescindir desse dado central.

O debate no Brasil

No Brasil, a dinâmica observada pelo estudo britânico é familiar.

Há anos, a cobertura midiática brasileira enfatiza quase exclusivamente pessoas trans como vítimas de violência, enquanto informações que poderiam complexificar o debate raramente recebem atenção proporcional.

Dois exemplos se tornaram particularmente difundidos:

  • a afirmação de que o Brasil seria “o país que mais mata pessoas trans no mundo”;
  • e a repetição da ideia de que a expectativa de vida de pessoas trans no país seria de apenas 35 anos.

Essas afirmações passaram a circular amplamente em reportagens, campanhas institucionais, materiais educacionais e discursos políticos, frequentemente sem contextualização metodológica adequada ou análise crítica das limitações dos dados utilizados.

A MATRIA já publicou relatório específico analisando criticamente essas estatísticas e apontando problemas importantes relacionados à ausência de denominadores confiáveis, inconsistências metodológicas, comparações internacionais frágeis e reprodução acrítica de números originalmente produzidos por organizações ativistas.

Independentemente das críticas metodológicas existentes, o fato é que essa narrativa já se consolidou no debate público brasileiro.

Esse ambiente dificulta discussões baseadas em evidências e torna politicamente custoso abordar qualquer aspecto da realidade que contrarie a narrativa dominante.

O estudo britânico não resolve o debate — e nem pretende fazê-lo. Mas ele ajuda a evidenciar um fenômeno importante: a forma como a mídia seleciona, enfatiza ou omite informações influencia profundamente a percepção pública sobre violência, risco e vulnerabilidade.

Leia mais análises sobre dados a respeito da população transidentificada na seção Dados, Relatórios e Dossiês.