Mulher negra em cerimônia de religião de matriz africana ilustrando post do Grupo de Trabalho Mulheres de Axé da MATRIA

Transativismo e desestabilização das religiões de matriz africana no Brasil

Compartilhe essa informação!

O presente texto foi produzido pelo Grupo de Trabalho de Mulheres de Axé da MATRIA e entregue em mãos a Reem Alsalem, Relatora Especial da ONU sobre violência contra mulheres e meninas, por ocasião de sua visita a Brasília, em março de 2026.

Introdução

A diáspora africana no Brasil constitui um dos mais profundos e determinantes processos históricos da formação social brasileira. Entre os séculos XVI e XIX, milhões de africanos foram trazidos à força para o território que se tornaria o Brasil, sobretudo por meio do tráfico atlântico de pessoas escravizadas. As principais origens desses contingentes situam-se na África Ocidental e na África Centro-Ocidental, especialmente nas regiões dos atuais Guiné Bissau, Senegal, Angola, Congo, Moçambique, Benin e Nigéria.

Entre os grupos mais frequentemente identificados nas fontes históricas estão os bantus (provenientes dos antigos reinos do Kongo e Ndongo, principalmente), povos de matriz ewe-fon (com destaque para os do antigo Reino do Daomé), iorubás (Reinos como Ilê Ifé, Oyó, Ketu, Oxobô, dentre outros), além de haussás e outros povos islamizados da África Ocidental. Cada um desses grupos trouxe sistemas complexos de organização social, cosmologias, técnicas agrícolas, economia, arquitetura, matalurgia, música, dança, culinária, línguas e formas próprias de espiritualidade.

O Brasil foi o maior destino de africanos escravizados nas Américas (estima-se cerca de 5 milhões), o que explica a densidade e a diversidade das heranças africanas no país. Aqui houve significativa recomposição comunitária e cultural. Em portos como Salvador, Recife e Rio de Janeiro, estabeleceram-se redes de sociabilidade que permitiram a preservação,  ainda que sob perseguição, de elementos religiosos e culturais africanos. É nesse contexto de violência e resistência que se formam as religiões de matriz africana no Brasil. Durante a escravidão, no pós-abolição e até os dias atuais, funcionam como espaços de reconstrução e de pertencimento. Ao preservar línguas litúrgicas, cantos, mitos e práticas ancestrais, mantém viva a memória africana.

Mulheres negras e as religiões de matriz africana no Brasil

A partir dessa grande teia de povos, diversas foram as religiões de matriz africana que se constituíram em solo brasileiro: Candomblé, Umbanda, Quimbanda, Jurema, Tambor de Mina, Omolocô, Batuque, Xangô, Culto de Egungun, Culto de Ifá, Jarê e Terecô. Destas, destacam-se o Candomblé e a Umbanda pelo grande número de adeptos e abrangência em todo território nacional. “Terreiro” é o nome genérico dado ao locus onde esses cultos em geral ocorrem. Esses terreiros são circundados por comunidades, com as quais mantêm relações de troca, solidariedade e pertencimento. Historicamente, as mulheres negras ocupam posições centrais de liderança no âmbito dos terreiros. São guardiãs de saberes rituais, mas também tem importante papel político, social e econômico no dia-a-dia de suas comunidades:

  • Papel político: frequentemente, essas mulheres  atuam como lideranças, e em muitos bairros populares, o terreiro funciona como espaço de organização social. Essas lideranças dialogam com autoridades políticas, intelectuais e instituições públicas, compõem conselhos de igualdade racial, fóruns de liberdade religiosa, elaboram projetos culturais financiados por editais públicos e estabelecem parcerias com universidades. 
  • Papel social: atuam como referências morais e mediadoras de conflitos familiares e sociais. Em muitos contextos periféricos, o terreiro funciona como espaço de acolhimento, aconselhamento e organização social, tendo essas matriarcas como figuras de autoridade legítima reconhecida. Elas desenvolvem ações assistenciais, como distribuição de alimentos e apoio a membros em situação de vulnerabilidade, exercendo função redistributiva. Promovem oficinas, cursos profissionalizantes, palestras sobre saúde, direitos e prevenção à violência doméstica.
  • Papel econômico: no campo econômico, essas sacerdotisas atuam como gestoras de uma estrutura comunitária complexa, administrando recursos, organizando festas públicas e articulando redes de fornecedores, artesãos, músicos e comerciantes. As atividades religiosas movimentam cadeias produtivas locais, geram trabalho e estimulam o turismo cultural, especialmente em cidades com forte tradição afro-brasileira. As atividades religiosas impulsionam diversos setores como costura (especialização em roupas litúrgicas), artesanato (produção de paramentas, esculturas, bijuterias, com temática afro-religiosa), cozinheiras, agricultoras e avicultoras.

A liderança feminina nos terreiros também representa um espaço histórico de autonomia para mulheres negras, que encontraram na posição de sacerdotisa reconhecimento social, autoridade simbólica e relativa independência econômica. Assim, os papeis políticos, sociais e econômicos das sacerdotisas revelam sua importância não apenas como dirigentes religiosas, mas como agentes sociais fundamentais para a sustentação das comunidades de matriz africana no Brasil. Algumas dessas matriarcas, inclusive, tiveram reconhecimento honorífico de sua atuação em solo africano, especialmente na Nigéria. 

Entretanto, apesar do seu grandioso e honroso papel, essas lideranças sempre enfrentaram múltiplas dificuldades. Ao longo da história brasileira, as religiões de matriz africana foram alvo de perseguição sistemática por parte do Estado e das forças policiais, especialmente entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Amparadas por dispositivos legais como o Código Penal de 1890, que criminalizava práticas classificadas como “curandeirismo”, “feitiçaria” e “espiritismo”, autoridades policiais invadiam terreiros, apreendiam objetos sagrados e prendiam sacerdotisas e sacerdotes sob a acusação de atentado à ordem pública e aos bons costumes. Questões jurídicas e burocráticas também são outra seara de dificuldade, envolvendo temas como regularização fundiária. Atualmente, o crime organizado e fundamentalistas religiosos assumiram o protagonismo da perseguição. Acrescem-se, a esses, mais um agente desestabilizador: o transativismo.

O impacto do transativismo nas religiões de matriz africana no Brasil

Na atualidade, o transativismo é, sem dúvida, um agente desestabilizador das religiões de matriz africana. De uma maneira geral, funções e vestimentas dessas tradições são organizadas a partir do sexo biológico. A divisão sexual está ligada a uma série de simbologias e fundamentos longínquos, e refletem a continuidade da cosmopercepção africana de mundo no Brasil.  

Nas últimas décadas, entretanto, os debates contemporâneos sobre gênero e transexualidade, amplamente difundidos no âmbito da sociedade civil, dos movimentos sociais, da academia e dos marcos jurídicos, passaram a atravessar também os espaços religiosos, incluindo os terreiros. Esse processo não se deu de forma homogênea nem isenta de tensões. 

Em tradições como o Candomblé, por exemplo, funções rituais e vestimentas são organizadas com base em categorias tradicionalmente vinculadas ao sexo. A influência de intelectuais, ativistas e agentes políticos partidários do transativismo, entretanto, têm desestabilizado práticas culturais milenares e exercido pressão externa para uma suposta “modernização”. Observa-se, também, uma pressão interna de adeptos partidários do transativismo. Ao analisar os possíveis riscos da imposição da adoção do critério de identidade de gênero para organizar esses espaços, é possível enumerar diversos pontos de tensão, a saber:

  1. Risco à liberdade religiosa: a liberdade religiosa prevista na Constituição Brasileira de 1988 assegura às comunidades o direito de organizar sua liturgia e disciplina interna conforme seus fundamentos teológicos. Vemos, entretanto, uma pressão externa para a substituição de critérios tradicionais e até incentivo a processos contra sacerdotisas que não adotem os pressupostos da identidade de gênero em suas tradições;
  2. Insegurança jurídica: a ausência de parâmetros claros sobre como compatibilizar identidade de gênero e organização litúrgica tem gerado insegurança jurídica, podendo levar a judicialização de conflitos internos, denúncias por discriminação e dificuldade de interpretação normativa por parte de juízes e tribunais que, em geral, desconhecem as dinâmicas culturais dessas comunidades. Isso pode expor terreiros a disputas legais complexas;
  3. Sexualização de símbolos sagrados: algumas lideranças religiosas apontam preocupação com releituras que tendem a sexualizar ou reinterpretar figuras femininas sagradas fora de seus fundamentos tradicionais. Deidades que ocupam posições centrais na cosmologia do Candomblé, por exemplo, associadas a princípios complexos como fertilidade e maternidade, são muitas vezes representadas por transativistas a partir de atributos corporais ou erotizadas. O que ocorre é uma redução simbólica que desconsidera a profundidade teológica e sua dimensão sagrada. 
  4. Influência da cultura transativista na rotina dos terreiros: vê-se uma introdução de performances, linguagens  e hábitos considerados inadequados ao contexto sagrado, perda de protagonismo feminino, homens adotando vestimentas tradicionais de mulheres e disputas simbólicas sobre a interpretação de deidades. 
  5. Perda de conhecimentos: sacerdotisas apontam, ainda, o risco da perda de conhecimentos sobre gestação, parto, puerpério, amamentação, cuidados femininos e cuidados voltados para saúde e educação de crianças à medida que cada vez mais homens que se declaram mulheres disputam as funções das mulheres. A interrupção dessas transmissões compromete não apenas práticas de cuidado, mas também identidades culturais e formas próprias de compreender o corpo e a maternidade. 
  6. Impacto sobre espaços íntimos: nos terreiros onde há quartos e banheiros de uso separado por sexo, surgem preocupações como privacidade, segurança e conforto psicológico de mulheres e meninas. Mulheres têm relatado situações de desconforto devido à presença de homens transidentificados em rodas de mulheres ou práticas como banho de ervas, mas se sentem cerceadas de falar.
  7. Ruptura comunitária: já são recorrentes relatos de rupturas comunitárias em virtude desta temática, com divisão entre membros mais tradicionais e membros favoráveis à uma espécie de “modernização”. Assiste-se, paulatinamente, a uma perda da coesão interna, e fragilização da autoridade da liderança religiosa feminina.
  8.  Descaracterização de fundamentos cosmológicos: de uma maneira geral os terreiros entendem que determinadas funções rituais estão vinculadas a princípios simbólicos associados ao masculino e ao feminino conforme sua tradição. Alterações estruturais são vistas como ruptura com fundamentos transmitidos oralmente por gerações.
  9. Estigmatização, disputa de recursos e de poder: em certos casos, divergências têm resultado até mesmo em exposição pública de conflitos nas redes sociais e mídias de médio impacto, com questionamentos e estigmatização de lideranças femininas, fragilizando-as. 

Paradoxalmente, é importante registrar que as religiões de matriz africana sempre foram espaços de acolhimento de grupos historicamente marginalizados, incluindo travestis e transexuais. Em muitos contextos urbanos brasileiros, terreiros funcionaram como ambientes de proteção simbólica e social para indivíduos rejeitados por suas famílias ou excluídos de outras instituições religiosas. A lógica comunitária do axé permitiu que pessoas dissidentes de gênero encontrassem reconhecimento, função e dignidade dentro da estrutura religiosa. Esse papel é pouco reconhecido, e o que se vê hoje é uma completa inversão da história, com acusações infundadas de transfobia.

Conclusão

A trajetória das religiões de matriz africana no Brasil é inseparável da história da resistência negra, da reconstrução comunitária no pós-escravidão e da afirmação cultural frente a séculos de perseguição. Nesse processo, as mulheres negras, especialmente as sacerdotisas, desempenharam papel central e estruturante. Foram elas que mantiveram vivos os fundamentos rituais, organizaram redes de solidariedade, dialogaram com o poder público, enfrentaram repressões policiais e sustentaram economicamente seus terreiros e comunidades.

A realidade contemporânea, contudo, apresenta novos desafios. Se, por um lado, as religiões de matriz africana sempre demonstraram capacidade de acolhimento e adaptação histórica, por outro, também possuem fundamentos cosmológicos próprios, transmitidos por gerações, que estruturam suas práticas, espaços e funções. Quando debates externos passam a pressionar por reconfigurações internas sem o devido diálogo intercultural, cria-se um ambiente de tensão que pode resultar em insegurança jurídica, ruptura comunitária e fragilização da liderança feminina tradicional.

É fundamental reconhecer que a liberdade religiosa, assegurada constitucionalmente, protege não apenas o direito de crer, mas também o direito de organizar a liturgia, os espaços e a disciplina interna conforme a tradição de cada comunidade. 

As mulheres de religião de matriz africana já enfrentaram o racismo, a intolerância religiosa, a violência simbólica e material, além das barreiras econômicas e institucionais. Acrescentar a esse cenário uma narrativa simplificadora que as rotule como intolerantes ignora a complexidade histórica dessas tradições e desconsidera sua trajetória de acolhimento e proteção social. Defender essas sacerdotisas assegura que qualquer transformação ocorra a partir do diálogo interno, do respeito à ancestralidade e da preservação da autonomia comunitária. O enfrentamento ao racismo e a proteção às mulheres negras líderes de terreiros devem continuar sendo prioridades, sob pena de se comprometer não apenas a liberdade religiosa, mas também a própria diversidade cultural brasileira. Em última análise, proteger as mulheres das religiões de matriz africana é proteger a memória da diáspora, a riqueza da pluralidade religiosa e o direito das comunidades tradicionais de existirem segundo seus próprios termos.

Leia todos os textos produzidos pelo Grupo de Trabalho de Mulheres de Axé da MATRIA

Mulher negra em cerimônia de religião de matriz africana ilustrando post do Grupo de Trabalho Mulheres de Axé da MATRIA

Transativismo e desestabilização das religiões de matriz africana no Brasil

O presente texto foi produzido pelo Grupo de Trabalho de Mulheres de Axé da MATRIA e entregue em mãos a ...
Retrato de mulher negra associado a debate sobre liberdade religiosa e tradições afro-brasileiras

Ativismo de gênero e a criminalização das tradições negras no Brasil

Análise jurídica sobre ativismo de gênero, ADO 26 e os riscos de criminalização das tradições negras e das religiões de ...