Esse texto é de autoria de uma seguidora da MATRIA, que preferiu permanecer anônima, por medo de sofrer perseguições.

a comunidade trans vive sob uma violência drástica e profunda:
se eles mesmos matam uma parte de si
na intenção de se transformarem em quem eles creem que são,
eles matam sua parte mais concreta: o corpo,
para se parecerem com sua mais abstrata: a ideia.
quando, por todas as demandas da vida concreta, precisamos voltar à sua concretude que,
apesar de conceitualmente morta segue sendo o continente dessa ideia,
os lembramos do seu morto.
o morto que os envolve.
o nome morto não é um cpf cancelado.
a pessoa física é o que existe no mundo,
na realidade compartilhada, não a ideia.
eles vestem o figurino de seu personagem e desejam que todos creiam que o ator não existe mais, só o personagem.
mas, se esse sujeito não existe sem os apetrechos que o configuram,
esse sujeito não existe.
e é justamente esse o medo deles:
se a plateia não vê o personagem,
ele não existe.
o fato é que: a realidade não é feita de personagens, mas de atores.
atores vivos,
apesar da tentativa de desaparecimento através do personagem.




