A verdade sai do poço

O fundo do poço

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Tales de Mileto foi um filósofo grego, importante personagem pré-socrático que previu eclipses solares, calculou distâncias e horários de equinócios e solstícios – tudo isso antes de Cristo.

Pintura “A Verdade saindo do poço” (1896), de Jean-Léon Gérôme, escultor e pintor francês

Ficou registrado por Platão no diálogo de Teeteto uma curiosa anedota filosófica que teria ocorrido a Tales: enquanto caminhava olhando para os céus, o glorioso astrônomo – avant la letre – caiu em um poço. Uma camponesa (rapariga de Trácia), ao ver Tales caído, teria zombado do filósofo, fazendo o seguinte comentário: “eis aqui um homem que estuda as estrelas e não pode ver o que está ao seus pés.”

A anedota se torna particularmente interessante quando retirarmos dela um precioso aprendizado, muito útil para a discussão contemporânea: não adianta estar na estratosfera da teoria, é preciso olhar para o chão que se pisa.

A recente publicação da MATRIA que afirma que “nunca foi sobre banheiros” é, nesse sentido, uma contribuição lapidar para um debate bastante “terreno” que precisa ser enfrentado pelo campo da esquerda (ou progressista, como preferem alguns).

O texto argumenta que figuras, digamos, “controversas” (para dizer o mínimo) como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato lograram um sucesso extraordinário em suas jornadas eleitorais apresentando algo surpreendentemente simples: o senso comum. O chão que se pisa. Isto é, ao dizerem que homens são diferentes de mulheres não estão, evidentemente, propondo um projeto aspiracional de país nem mesmo apresentando um slogan político genial – estão, meramente, falando um dado de realidade.

No insólito terreno da teoria, podemos discutir performances e devires livremente além, é claro, de calcular as múltiplas identidades de gênero, não esquecendo nunca da etérea linguagem neutra, centro de tantos debates pouco edificantes. No entanto, no dia a dia real, na aula de educação física e no banheiro da rodoviária – que, pasmem, não é igual ao do avião ou ao da sua casa –, nesses lugares, as “construções sociais” são apenas molduras espetaculares para uma inescapável e sólida evidência: o corpo existe e o sexo importa.

Neste campo, quando um candidato não diz nada além do óbvio, infelizmente, ele acaba dizendo muito. E diz muito porque ele diz o que as pessoas entendem empiricamente, pisando no chão, sem a necessidade de teoria nenhuma.

As mulheres sabem que a realidade material do corpo importa. Sabem disso todos os meses, quando menstruam. Mas sabem também através do noticiário: é por causa da exploração do seu sexo que as mulheres são as pessoas mais atingidas pelo tráfico humano. É por causa da diferença de força física entre homens e mulheres que um namorado pode desfigurar a namorada com 60 socos dentro de um elevador. É por causa da sua capacidade reprodutiva que a mulher, durante muito tempo e ainda hoje, recebe um salário menor e menos oportunidades de crescer na carreira – porque pode engravidar e causar “prejuízo” ao campo produtivo do trabalho.

A lista é grande e bastante conhecida por todas as mulheres. No entanto, ultimamente, poucas ousam dizer em voz alta algo muito básico como: “homens são diferentes de mulheres”. Mas, aqui está a anedota contemporânea: coube aos nada filosóficos personagens Nikolas e Pavanato o poder de “ver o que está ao seus pés”.

Foi assim que “entregamos a estes representantes da extrema-direita algo eleitoralmente poderosíssimo: o monopólio do senso comum”. Isso é muito grave.

É grave porque é a verdade sendo apresentada nua e não vestida com as armas e as roupas da teoria queer. E a resposta da esquerda para isso é que as pessoas são burras, fascistas, ou que precisam estudar mais. Não é preciso estudar nada para saber que se você não olhar para a realidade aos seus pés, você vai acabar caindo no buraco. Não é necessário nenhum aparato filosófico complexo para reconhecer as diferenças observáveis entre homens e mulheres. Isso é o básico.

Mas isso tudo já estava, de alguma forma, contemplado no texto publicado anteriormente. Gostaria de agora acrescentar um outro ponto a este debate.

Tendo participado da MATRIA há bastante tempo, acumulando informações e argumentos a respeito desse incômodo da substituição do sexo pelo gênero em políticas públicas, uma pergunta, também muito simples, me acompanhava: “por quê?”. Por que essa agenda ganhou tanta tração e de forma tão rápida?

A relatora especial da ONU, Reem Alsalem me deu a melhor resposta de todas: porque é mais fácil. Imagine fazer uma política pública que realmente atenda as mulheres. Por exemplo: aumentar o número de creches públicas, dar acesso à capacitação e planejamento familiar ou diminuir a fila de cirurgias ginecológicas nos SUS. Tudo isso é muito custoso, movimenta um transatlântico de estratégias, verbas e mão de obra para ser, de fato, efetivado.

Agora imagine que as mulheres, num passe de mágica, deixaram de ser a classe sexual mais socialmente vulnerável e que, agora, os seus problemas estão à sombra de outros muito maiores. Afinal, “somos o país que mais mata pessoas trans” e, no nosso país, a média de vida dessas pessoas é somente de “35 anos” (esses dados são falsos, mas como toda boa mentira repetida muitas vezes, já estão concretados no imaginário do disputado senso comum). Pois bem, a “pessoa trans” é agora muito mais vulnerável que uma mulher. E o que você precisa fazer para gerar uma política pública para esta classe? Inaugurar um banheiro! Veja que nem precisa ser um banheiro novo, basta mudar a plaquinha antiga do banheiro feminino e indicar que ali entram, a partir de agora, “todas as identidades femininas”. Fácil, extremamente fácil.

Isso nos permite chegar à seguinte conclusão: não, o eleitor não é burro, caro estrategista de campanha. Votando em figuras como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato ele está, na verdade, zombando daqueles que, mergulhados em teorias e estratégias fáceis, deixaram de enxergar o mundo com os olhos de ver: homens são diferentes de mulheres e as mulheres estão sendo vilipendiadas em seus direitos porque fingir que essas diferenças não mais existem sai mais barato no mercado da lacração política.

É realmente lamentável que todos nós tenhamos que cair no fundo do poço para voltar a enxergar o óbvio.

Textos de opinião das associadas da MATRIA