Plataforma do respeito IA Aletheia

MATRIA aciona Justiça Federal contra plataforma financiada com recursos públicos para monitoramento ideológico

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MATRIA questiona Plataforma do Respeito na Justiça Federal

A MATRIA – Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil ingressou com ação judicial na Justiça Federal da 1ª Região, questionando a legalidade da contratação e do financiamento público da chamada Plataforma do Respeito, projeto vinculado à Aliança Nacional LGBTI+ e financiado com recursos federais.

A MATRIA considera que o projeto ultrapassa objetivos legítimos de combate à desinformação e passou a operar, na prática, como estrutura de monitoramento de conteúdos, discursos, pessoas e organizações do debate público — incluindo a própria MATRIA.

A ação questiona a legalidade dos meios empregados, o uso de recursos públicos federais e os limites constitucionais de um sistema de monitoramento de manifestações e atores do debate público.

O que é a “Plataforma do Respeito”?

Em 2025, surgiu no Instagram uma página chamada Plat Respeito, cuja primeira publicação mencionava a MATRIA em conteúdo que a associação considera falso e difamatório. Após questionamentos públicos, a postagem foi removida.

Postagem difamatória da Plataforma do Respeito sobre a MATRIA
Postagem desde então deletada, na qual sequer o nome da MATRIA está correto,

Há diversas outras postagens no perfil que mencionam a MATRIA.

Postagem Plataforma do respeito sobre MATRIA ser transexcludente
Postagem Plataforma do Respeito sobre MATRIA - parte 1
Postagem Plataforma do Respeito sobre MATRIA - parte 2

Postagem Plataforma do Respeito e Kim Flores sobre MATRIA

Posteriormente, a página passou a ser associada à chamada Plataforma Aletheia, descrita como sistema de análise e verificação de conteúdo digital voltado ao combate à desinformação.

Segundo materiais públicos do projeto, a ferramenta utiliza inteligência artificial e monitoramento de conteúdos digitais para identificar publicações consideradas “problemáticas “discurso de ódio” sob os critérios da Aliança Nacional LGBTI+.

Embora o discurso público do projeto seja o combate a “fake news” no Paraná, sua implementação e documentação indicam atuação mais ampla, voltada ao monitoramento sistemático de opiniões classificadas como “discurso de ódio” e ao encaminhamento de conteúdos considerados inadequados para o Ministério Público, para criminalização.

Como o projeto foi financiado

De acordo com documentos públicos anexados à ação, o projeto recebeu R$ 300 mil em recursos federais, por meio do Termo de Fomento nº 961456/2024, executado pela Aliança Nacional LGBTI+, em parceria com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, através da sua Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTIQIA+. Tal secretaria é comandada por Simmy Larrat, também presidente de ONG que compartilha endereço com a Aliança Nacional LGBTI+, a quem os recursos se destinam.

Os R$ 300 mil são provenientes de emenda parlamentar de Érika Hilton

Formalmente, o objeto do termo previa o desenvolvimento de um sistema de monitoramento de fake news relacionadas à comunidade LGBTI+ no Estado do Paraná. A execução concreta do projeto , no entanto, extrapola esse escopo, assumindo características de monitoramento contínuo de discursos, perfis e organizações do debate público, inclusive fora do recorte territorial originalmente previsto.

A controvérsia não diz respeito apenas ao conteúdo político do projeto, mas à própria legalidade do objeto financiado com dinheiro público.

Documentos indicam menção deliberada à MATRIA

Entre os documentos reunidos pela associação está uma ata de reunião interna do projeto, datada de 24 de abril de 2025, na qual há referência expressa à MATRIA. O documento demonstra intenção deliberada de citar a organização em publicações e materiais de comunicação da plataforma, especificamente para criticá-la publicamente.

Esse registro levanta preocupação sobre eventual uso de estrutura financiada pelo Estado para exposição direcionada e constrangimento institucional de organizações com posições divergentes no debate público.

Ata de reunIão da Plataforma do respeito mencionando MATRIA
Ata de reunIão da Plataforma do respeito mencionando MATRIA

Os principais fundamentos da ação

A ação ajuizada pela MATRIA sustenta a existência de múltiplas ilegalidades convergentes, que, em conjunto, tornariam inválido o Termo de Fomento nº 961456/2024.

Possível desvio de finalidade

Embora o objeto formal do termo estivesse relacionado ao combate à desinformação, a execução concreta do projeto assumiu funções mais amplas de monitoramento permanente de conteúdos, classificação de discursos e direcionamento de ações contra pessoas e organizações específicas, o que configura possível desvio de finalidade administrativa, quando um ato público passa a ser utilizado para finalidade distinta daquela formalmente autorizada.

Limites legais do uso de recursos públicos

Outro eixo central da ação diz respeito aos limites jurídicos das parcerias entre Estado e organizações da sociedade civil, pois recursos públicos não podem financiar estrutura voltada ao monitoramento sistemático de cidadãos e organizações com objetivo de classificação, exposição pública ou encaminhamento de denúncias sobre opiniões e manifestações protegidas pela liberdade de expressão.

Isso ultrapassaria atividades legítimas de advocacy, educação ou produção de estudos, aproximando-se indevidamente de funções materialmente ligadas ao poder de polícia estatal.

Liberdade de expressão e pluralismo democrático

A ação sustenta ainda que o caso envolve direitos fundamentais, incluindo liberdade de expressão, livre associação e pluralismo democrático.

Um sistema financiado pelo Estado voltado ao monitoramento de discursos pode produzir efeito intimidatório sobre indivíduos e organizações da sociedade civil, especialmente em temas públicos sensíveis e controversos.

O caso ultrapassa os interesses institucionais da própria MATRIA e envolve questão mais ampla:

Quais são os limites democráticos do monitoramento de opiniões financiado pelo poder público?

Proteção de dados e monitoramento digital

A ação também levanta questionamentos relacionados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ao Marco Civil da Internet, pois o projeto envolve monitoramento de conteúdos, categorização de perfis e interpretação de manifestações sem transparência suficiente sobre critérios, limites e garantias às pessoas monitoradas.


Leia a ação judicial na íntegra

Em compromisso com a transparência, disponibilizamos abaixo a petição inicial protocolada pela defesa da MATRIA perante a Justiça Federal, para consulta pública.

Leia mais a respeito da atuação jurídica da MATRIA.