A MATRIA – Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil encomendou uma análise técnica independente sobre o estudo do Ipea “A inserção das pessoas trans no assalariamento formal“, a respeito da empregabilidade da população trans.
O objetivo foi avaliar, com rigor metodológico, os dados, as escolhas analíticas e as conclusões apresentadas por um órgão público de grande relevância institucional — especialmente considerando seu potencial impacto na formulação de políticas públicas.
Esse relatório faz parte do esforço da MATRIA em produzir estudos que ampliem o debate e apontem, sempre que necessário, a fragilidade dos dados a partir dos quais se tem tratado temas afeitos às pessoas que se autodeclaram trans no Brasil.
Sobre o autor da análise
A análise foi elaborada por Bruno Erbisti Garcia, professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas, doutor em Ciência da Computação e especialista em ciência de dados, estatística e machine learning.

Em resumo: o que a análise encontrou
O documento aponta problemas metodológicos relevantes no estudo do Ipea, que comprometem a robustez das conclusões. Entre os principais pontos:
1. Identificação imprecisa da população trans
O estudo utiliza alterações recentes em registros administrativos (como CPF) como critério para identificar pessoas trans: isso não representa a população trans como um todo, mas apenas um subconjunto muito específico — quem fez alterações cadastrais recentes ou utiliza nome social.
Além desse problema, as bases utilizadas, como CPF e RAIS, têm problemas conhecidos:
- erros cadastrais
- campos incompletos (“não informado”)
- ausência de histórico
Mesmo assim, são tratadas pelo IPEA como se representassem fielmente a população analisada.
2. Forte viés de seleção (especialmente por idade)
A amostra identificada é majoritariamente jovem. Ou seja, diferenças de renda e emprego podem refletir a fase da vida (menos experiência, empregos e salários iniciais) — e não necessariamente discriminação.
3. Confusão entre correção de dados e identidade de gênero
Mudanças em nome ou sexo no cadastro são interpretadas como evidência de identidade de gênero.
No entanto, como demonstra a análise feita por Bruno Erbisti, essas alterações podem ocorrer por outros motivos, como correções administrativas.
4. Comparações sem controle estatístico adequado
Diferenças de renda e emprego são apresentadas como evidência direta de desigualdade. Mas não é possível fazer essa inferência direta sem controle por fatores básicos como:
- idade
- escolaridade
- setor de trabalho
- tipo de vínculo
Sem esses controles, não é possível isolar causas e afirmar que as diferenças encontradas seriam consequência de discriminação da população autodeclarada trans.
5. Uso acrítico de dados frágeis
O estudo reproduz estatísticas amplamente divulgadas (como estimativas sobre prostituição) sem base empírica verificável, o que compromete a confiabilidade das inferências.
A MATRIA já se debruçou sobre a afirmação de que 90% das mulheres trans estaria em situação de prostituição, demonstrando não ter qualquer embasamento. É, portanto, preocupante que um órgão público e de pesquisa utilize tal dado sem qualquer análise prévia.
Conclusão
Segundo a análise, o estudo do Ipea não descreve a população trans brasileira como um todo, mas um subgrupo específico:
- com maior interação com o Estado
- mais jovem
- inserido no mercado formal
No entanto, o trabalho foi apresentado como uma fotografia da empregabilidade da popualção autodeclarada trans como um todo e repercutiu dessa forma na imprensa.
É preocupante que nem o IPEA e nem a mídia tenham apontado as limitações metodológicas do estudo realizado, pois o resultado são diagnósticos distorcidos que podem gerar políticas públicas mal direcionadas e, portanto, recursos alocados com base em evidências frágeis.
Ao noticiar a criação de cotas para mulheres trans nas empresas que prestam serviços para o Tribunal Superior do Trabalho (TST), por exemplo, diversos artigos mencionam o estudo do IPEA como justificativa para tal medida.
Esse é um problema recorrente no debate público a respeito da situação das pessoas que se declaram trans no Brasil: o uso de dados frágeis ou não auditáveis como se fossem evidência sólida.
Quando os dados são ajustados para sustentar uma narrativa prévia, deixam de servir à ciência e passam a atender a uma construção ideológica.








