pessoa que menstrua

Por que dizer "pessoa que menstrua" exclui as mulheres?

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O termo "pessoa que menstrua" reduz as mulheres à sua dimensão biológica e apaga a história política de seus corpos.

Texto escrito por uma associada. O presente texto é de natureza opinativa. As ideias e análises aqui contidas são da autora e não refletem, necessariamente, o posicionamento institucional da MATRIA.

O termo "pessoa que menstrua" vem sendo utilizado por entidades de saúde para englobar além das mulheres, a experiência também de pessoas intersexo, não binárias e transmasculinas. O intuito é incluir, mas isso pode provocar profundas consequências para nós, mulheres, tanto no campo pessoal como no político.

Este texto faz parte da série Comece por aqui. Os dois conceitos de partida da série estão em Sexo existe? e O que é "identidade de gênero"?

Qual é a problemática em torno do termo "pessoa que menstrua"?

A problemática dessa argumentação está no fato de que as mulheres acabam sendo reduzidas a sua questão biológica, apagando séculos de controle, medicalização e normatização aplicada a nossos corpos.

Djamila Ribeiro, feminista e filósofa, contestou essa questão em um artigo "Nós, mulheres, não somos apenas 'pessoas que menstruam'", publicado na Folha de São Paulo (2022). Nesse texto pode-se perceber a angústia da autora no fato de que o termo só faz com que o apagamento desmantele uma das experiências mais "sagradas" do ser "mulher".

Essa substituição e apagamento da "mulher" por meio da expressão "pessoa que menstrua" pode parecer um cuidado com o outro. No entanto, o que se processa é uma destituição da própria historicização política e material do corpo da mulher, que é marcado por um longo processo de submissão e violência.

Dessa forma, ao falarmos sobre menstruação sem mencionarmos "mulher" podemos estar neutralizando experiências intrínsecas que só mulheres são capazes de experienciar. Ainda é válido destacar que "mulher" não é uma categoria identitária, mas envolve todo um conjunto de jogos políticos e apagar isso não disfarça séculos de dominação.

Ilustração esquemática do útero, das tubas uterinas e dos ovários

Quando apagamos, deixamos de lado a realidade material do sexo. Kathleen Stock (2023) argumenta que o sexo não é uma realidade ficcional; pelo contrário, é concreto, e, portanto, a menstruação, como um evento fisiológico da mulher, faz parte dessa realidade material sexual da qual não podemos fugir.

As dores, os sangramentos, os tabus, os constrangimentos envolvidos são deslocados quando o termo "pessoa que menstrua" se sobressai. O sangue menstrual, que representa algo poderoso para as mulheres, mesmo que a sociedade nos ensine a ter vergonha dele, transforma-se em mero marcador biológico sem sujeito histórico.

Ao focarmos na materialidade do corpo, e, dessa maneira, da mulher e não da "pessoa que menstrua", propomos que o termo "mulher" não é excludente; pelo contrário busca trazer todas as experiências menstruantes para o foco das mulheres.

"Pessoa que menstrua" acaba por silenciar a realidade material das mulheres em um país em que a pobreza menstrual atinge milhares de meninas e adolescentes diariamente (Unicef, 2021). 

Precisamos perceber que na experiência do menstruar, meninas e mulheres têm essa materialidade específica e que precisam de cuidados específicos para isso. Portanto, existe sim um público que precisa ser nomeado.

Ilustração de três itens de higiene menstrual: absorvente com abas, coletor menstrual e calcinha absorvente

Homens transidentificados jamais enfrentarão a realidade da menstruação. A expressão "pessoa que menstrua" apaga essa materialidade e cria a falsa impressão de incluir quem nunca vivenciará esse processo. A menstruação é uma dádiva da natureza, um dos fenômenos mais belos do ciclo feminino, e pertence exclusivamente às mulheres.

Por fim, é importante destacar que as feministas radicais trouxeram um importante papel para pensarmos que o corpo é uma plataforma de batalha política. Ao dissolvermos a materialidade, buscando neutralizar o corpo a qualquer custo, estamos ignorando que a menstruação é um instrumento pela qual as meninas se tornam mulheres; de diferenciação; de tabus; de vergonha, etc.

O que está por trás dessa política é o apagamento da luta, da carne e da história das mulheres. Recuperar a palavra "mulher" em toda a sua essência é um ato de restabelecimento da materialidade como fundamento político e ético da luta das mulheres.

Não se trata de apagar nenhuma identidade, mas de reconhecer que a linguagem é política e que incluir implica excluir. 

Dizer "pessoa que menstrua" não é uma afirmação neutra. Ela deve ser vista como um imperativo discursivo que participa da inteligibilidade do corpo. Além disso, a luta das mulheres está na disputa pela palavra, portanto os termos importam. Assim, apenas mulheres menstruam e não aceitaremos algo diferente disso.


Referências:

GONÇALVES, Sereno. 'Pessoas que menstruam' é termo vital para que 'todes' acessem políticas públicas. 2022. Folha de São Paulo. Disponível: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/12/pessoas-que-menstruam-e-termo-vital-para-que-todes-acessem-politicas-publicas.shtml. Acesso em: 09 nov. 2025.

RIBEIRO, Djamila. Nós, mulheres, não somos apenas 'pessoas que menstruam'. 2022. Folha de São Paulo. Disponível: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2022/12/nos-mulheres-nao-somos-apenas-pessoas-que-menstruam.shtml. Acesso em: 09 nov. 2025.

Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). No Brasil, milhões de meninas carecem de infraestrutura e itens básicos para cuidados menstruais. 2021. Disponível: https://www.unicef.org/brazil/comunicados-de-imprensa/no-brasil-milhoes-de-meninas-carecem-de-infraestrutura-e-itens-basicos-para-cuidados-menstruais. Acesso em: 09 nov. 2025.

STOCK, Kathleen. Material Girls: Por que a realidade importa para o feminismo. São Paulo: Editora Cassandra, 2023. 

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