Mulheres marxistas associadas à MATRIA respondem ao texto do PCB Campinas, intitulado: “Transfobia não é feminismo: uma crítica materialista ao feminismo radical. Não existe feminismo emancipatório baseado em determinismo biológico”.

Um partido político que afirma utilizar Marx como referência, deveria atentar-se para a definição da crítica em Marx. Em Marx, crítica significa analisar os fundamentos do fenômeno estudado, verificar o que deve ser mantido e o que deve ser excluído. Crítica em Marx não consiste em etiquetar o fenômeno como bom ou mau.
O PCB de Campinas uma vez que incapaz de analisar as críticas que o transativismo tem recebido, simplesmente as adjetivou como fraude teórica, projetando nos outros exatamente aquilo que realiza. Pois no citado texto, é o PCB que comete fraude teórica, ao inverter a prioridade do ser sobre o pensar, própria do materialismo, para adotar a cabalmente idealista prioridade do pensar sobre o ser.
O fenômeno em tela é a discordância, tão vultosa atualmente que não mais pode ser ignorada pelo transativismo e pela esquerda a ele aderente, dos pressupostos idealistas do transativismo, suas reivindicações contraditórias sobre a realidade material do sistema sexo/gênero e as terríveis consequências que impõe para as vidas de mulheres e meninas. Não nos deteremos em mencionar tais absurdos, pois a organização de mulheres que hospeda o presente texto cumpre brilhantemente com essa tarefa, e as informações a respeito podem ser encontradas neste mesmo site, com fatos largamente documentados, disponíveis para que qualquer uma ou qualquer um minimamente disposto a conhecer a realidade da política trans possa acessar e formar livremente sua própria opinião, sem interdição de qualquer espécie ao debate honesto de posições, mesmo que divergentes.
Materialismo histórico dialético
O que pretendemos aqui, portanto, não é denunciar a cega adesão a uma concepção abertamente misógina sobre o feminismo, mas sim demonstrar que lançando mão do rigor da crítica marxista, o recurso de classificação como bom/mau do fenômeno, além de pobre e autoritário, teórica e politicamente, é facilmente demolido, pois obviamente fraudulento, frente ao arsenal heurístico do materialismo histórico-dialético (MHD).
O MHD, o método criado por Marx, sustenta que a realidade material antecede as ideias, e as ideias surgem dessa realidade material, elaboradas a partir de um conjunto de mediações. Na discussão presente, no que se refere ao sistema sexo-gênero, significa afirmar que o sexo, do qual todos somos portadores desde nossa constituição intrauterina (apenas possível dentro dos corpos sexuados das mulheres), é a base material biológica sobre a qual se erguem o conjunto de determinações sociais, ou melhor, socioideológicas, nomeadas como gênero. Gênero é assim, um conjunto de atribuições, de formas de funcionamento, de papéis sociais historicamente situados, empobrecedores e dicotômicos, arbitrariamente designados aos corpos sexuados de homens e mulheres.
Desenhando: Materialismo significa reconhecer que a realidade material (o sexo) antecede a ideia (o gênero), e idealismo significa defender que o conjunto de ideias (gênero) cria realidade material (sexo).
A fraude teórica do PCB é reivindicar-se materialista, e no interior do MHD, do marxismo, postular que o desejo ou aquilo que os seres humanos pensam sobre si mesmos, antecede e cria o real. No que se refere ao sistema sexo-gênero, é uma posição idealista – e não materialista – afirmar que se alguém se sente mulher ou alega ser mulher, esta ideia, este desejo é capaz de criar o real, ou seja, de transformar um ser humano do sexo masculino em uma mulher.
Não pinto, de modo algum, estas figuras com cores róseas. Mas aqui só se trata de pessoas à medida que são personificações de categorias econômicas, portadoras de determinadas relações de classe e interesses. (…) o meu ponto de vista, que enfoca o desenvolvimento da formação econômica da sociedade como um processo histórico-natural, pode tornar o indivíduo responsável por relações das quais ele é, socialmente, uma criatura, por mais que ele queira colocar-se subjetivamente acima delas. No campo da Economia Política, a livre pesquisa científica depara-se não só com o mesmo inimigo que em todos os outros campos. A natureza peculiar do material que ela aborda chama ao campo de batalha as paixões mais violentas, mesquinhas e odiosas do coração humano, as fúrias do interesse privado.
Marx, no livro I do Capital- vol I, pg 131.
Nunca essa frase achou lugar de pertencimento tão certeiro como quando se discute mulheres. Aqui, portanto, não nos referimos a tal ou qual pessoa, mas aos processos por elas encarnados. Na esteira de Marx, não nos interessa o que os sujeitos pensam que são, como eles se “sentem”, mas como efetivamente são. Aqueles que alegam ser mulheres são efetivamente homens, e nada poderia demonstrar melhor isso do que a ira com que se levantam, buscando impor violentamente sua visão de mundo, silenciar o debate, e assim mobilizando todo o arsenal patriarcal da misoginia contumaz para etiquetar mulheres que ousem discordar de seu delírio idealista.
E no que se refere às “fúrias do interesse privado”, chama atenção a virulência com a qual os divergentes da cartilha do transativismo têm sido tratados, e nesse ponto, vale mencionar o substancial financiamento de agências imperialistas que esses grupos de ativismo trans recebem, fato largamente documentado pela MATRIA e cujas provas também podem ser encontradas neste mesmo site.
O PCB quer imputar às feministas radicais uma associação à extrema direita, quando os projetos defendidos por aquelas e esta não poderiam ser mais discrepantes. As radicais, feministas que são, pretendem a emancipação feminina e a abolição do gênero, já a extrema direita, embora concorde na crítica ao transativismo (até um relógio quebrado acerta a hora duas vezes por dia), também ela contém um movimento de renovação da ideologia do patriarcado.
Curioso como também nisso o PCB projeta a falácia do próprio argumento, pois causa espécie o alinhamento do discurso de organizações que se dizem revolucionárias, com as agências imperialistas defensoras dos direitos trans, a repetição de slogans promovidos pela Rede Globo, Folha de São Paulo e demais veículos da mídia hegemônica, que jamais poderiam ser confundidos com defensores da classe trabalhadora e de seus interesses.
Determinismo e determinação
Há que se mencionar ainda a confusão muito primária entre determinismo e determinação posta no texto do PCB Campinas, que expõe a absoluta ligeireza e superficialidade do que querem fazer passar por análise, bem como o desconhecimento da obra marxiana por parte das pessoas que o escreveram. Tais pessoas leram meio livro de Marx, decoraram uma porção de frases feitas e as repetem automaticamente, como mantras, incapazes de uma análise para além das aparências, como exige o MHD.
O MHD recusa o determinismo, ou seja, a análise positivista e mecanicista de que tomando A como causa, o resultado será sempre e necessariamente B. Essa recusa se funda na premissa de que os seres humanos são portadores de teleologia e vontade, diversamente dos animais. Somos seres biológicos tornados sociais pelo trabalho, e assim, podemos criar uma série de funcionamentos, que nos permitem elaborar um conjunto de mediações, porém, sem nunca romper com a base biológica, pois esta é uma determinação do real. Assim estão postas as várias possibilidades do agir humano, socialmente ilimitadas, mas biologicamente determinadas. Portanto, a refutação do determinismo não implica de nenhuma maneira o descarte da premissa a existência da determinação, das características imanentes de cada fenômeno ou ser, o que exatamente nomeia a primeira parte do MHD, isto é, o materialismo.
Em sua vasta obra, Marx não diz o que ele pensa do capital, não se trata de uma apreciação moral. Marx descobre a estrutura e dinâmica do capital, e o método por ele utilizado permite-lhe, e a qualquer um que dele se aproprie e aplique, extrair do objeto suas múltiplas determinações. Para o MHD, conhecer teoricamente é saturar o objeto de múltiplas determinações concretas.
Ciência ou fé?
Esta posição é antagônica à esboçada pelo PCB Campinas no post a que respondemos, pois em sua manifestação, a organização não analisa as determinações materiais do fenômeno que afirma conhecer, mas apenas o rechaça por meio de artifícios enganosos, adjetiva-o, classifica-o moralmente. Ora, analisar os fenômenos com viés moral é próprio do pensamento conservador, rechaçado por Marx e Engels, e é uma posição política reacionária, que – Freud explica – o PCB também projeta nos seus opositores.

Na legenda do post, o PCB declara “Comentou transfobia? Vai ser apagado. Sem debate, sem palco, sem concessão”. E assim demonstra seguir à risca a execrável tradição do autoritarismo stalinista, de praticar expurgos, de impedir por meios violentos que posições diferentes possam ser discutidas, ao afirmar que não se pode COMENTAR, isto é, discutir a questão. Formularam um index, um rol de assuntos proibidos, e elegeram um conjunto de premissas inquestionáveis, que como nos livros religiosos, são dogmas a serem obedecidos, e não podem jamais ser confundidas com posições teórico-políticas a serem debatidas.
A distinção básica entre fé e ciência é que a fé se faz por concordância sem possibilidade de discussão dos dogmas, mas a ciência se faz com dúvidas, com questionamentos historicamente produzidos. Fato é que apenas na base da fé, da imposição, da ameaça, da violência, da perseguição aos dissidentes, do silenciamento de qualquer debate consciente é possível garantir que uma concepção tão estapafúrdia quanto a de que homens tornem-se mulheres apenas em decorrência de seu desejo ou sentimento íntimo prevaleça.
Se faz mister atentar que esse post em nenhum momento define o que é feminismo, tomando-o como se fora um monolito, a ser obedecido, uma verdadeira definição de fé, e convertendo o debate sobre ele em heresia. É certo que o PCB parte de uma dentre muitas possíveis definições do feminismo, que como todo conceito está sempre em disputa. Nós também temos uma concepção de feminismo, cuja premissa básica é a constatação de que sobre as fêmeas da espécie humana recaem um conjunto de determinações violentas e autoritárias. Ao conjunto de ideias discordante da opressão que rege a vida das mulheres, se nomeia Feminismo (palavra que vem de fêmeas). Às pessoas que não concordam com essas determinações – majoritariamente mulheres e alguns homens – chamamos feministas.

O post do PCB também não define o que é transfobia, mais um recurso próprio de seitas, também este especialmente violento e autoritário, pois amplia o escopo de repreensão e punição para qualquer atitude que o opositor tente esboçar ou argumento que tente elaborar. Como tem sido costumeiro na trajetória do PCB, fiel à execrável tradição stalinista, apenas expurgam os dissidentes, violam e silenciam a discussão. Marx e Engels e toda a tradição marxista revolucionária, não stalinista, se reviram no túmulo.
Não, o PCB não é materialista, pois desconsidera todo o rico arsenal heurístico do MHD, para sucumbir ao poder ideológico e financeiro do imperialismo travestido com ares de avanço societal. Empreende uma veloz marcha em direção ao passado, reciclando e reinventando a opressão patriarcal. Não temos dúvidas, a história cobrará esta traição.
Para prestar contas à História, escrevemos este texto, marxistas que somos. Infelizmente, nestes tempos sombrios em que dizer a verdade sobre a realidade biológica e política das mulheres foi tornado o pior de todos os crimes, nos vemos impedidas de assiná-lo em temor das represálias.
A MATRIA é uma associação plural e suas associadas produzem textos partindo de seus diversos perfis e campos teóricos. Leia mais análises escritas por nossas associadas.




