Foto de pessoa com caixa de papelão na cabeça representando cego que acha que enxerga

O pior cego é o que acha que enxerga tudo

Compartilhe essa informação!

Esses relatos foram encaminhados por uma seguidora da MATRIA, hoje associada, que trabalhou no setor de Registro Civil da sua cidade. Como a quase totalidade das mulheres que nos encaminham relatos, ela deseja permanecer anônima, por medo de retaliações.

Os nomes utilizados são fictícios.

O Caso Que Me Fez Questionar Tudo

Trabalhei por quase 11 anos no setor de Registro Civil e se tem uma coisa que aprendi é que a vida real sempre encontra um jeito de desafiar até as certezas mais profundas.  

Eu me considerava progressista – engolia todas as bandeiras sem mastigar, defendia causas com unhas e dentes e me orgulhava de ser a “aliada número um” de qualquer minoria. Meu chefe, Agenor, era o oposto: conservador, fã de políticos de extrema direita e meu rival filosófico de plantão. Nossos debates eram “acalorados, mas respeitosos”.

Quando foi possível realizar a alteração de nome social apareceu Márcia, uma mãe acompanhada do filho Carlinhos, de 5 anos, solicitando a emissão de um novo RG com o nome social “Carol” para a criança.  

Na época, tínhamos dois setores:  

 Registro de dados – para inclusão do nome social;  

 Biometria– foto, assinatura e digitais.  

O problema começou quando Márcia exigiu mudar também o campo “sexo” de masculino para feminino na ficha do documento e foi orientada sobre a impossibilidade dessa alteração pois seguíamos a certidão para realizar o cadastro e na certidão constava “masculino” no campo “sexo”. 

Márcia surtou:  

— “Vocês estão negando a identidade da MINHA FILHA!”  

Chamou a polícia, que veio, ouviu a explicação burocrática e não pode fazer nada. Márcia chorou copiosamente – não por ter sido negligenciada, mas porque não conseguiu impor sua vontade.  

Para evitar novos conflitos, me designaram (“a mais progressista de todas as atendentes”) para finalizar o atendimento. O menino de 5 anos estava:  

• De vestido rosa;  

• Unhas, batom e sombra rosa;  

• Assinando o nome “Carol” com letra infantil.  

A mãe, “orgulhosa”, dizia: “Sempre soube que ele era uma menina – desde bebê, só gostava de coisas de menina!”

Na época, “eu me emocionei”. Hoje, vejo o absurdo.  

O conservador tinha razão?  

Meu chefe Agenor me olhou com desdém na hora:  

— “Crianças não têm capacidade de discernimento sobre esse tipo de coisa…” ele balançava a cabeça indignado.

Naquele momento, me senti anos à frente, uma vanguardista! Depois eu vim a entender: a alienada ali era eu. Um homem que eu considerava “ultrapassado” tinha mais noção sobre desenvolvimento infantil do que eu, engolida pela minha própria propaganda ideológica.  

Moral da história: às vezes, a vida te joga uma situação para a qual nenhum manual de ativismo te prepara. E o pior cego não é o que não quer ver – é o que acha que enxerga tudo.

O Dia em que o Nome Morto Virou um Caos no setor de Registro Civil

Essa história aconteceu quando a inclusão do nome social no RG ainda era algo recente.

No RG, temos dois setores principais:

 Coleta de dados – onde se faz a solicitação do nome social;

 Biometria – onde são tiradas foto, digital e assinatura.

Nesse dia, chegou uma pessoa que se identificava como Luana, mas cujo nome de registro era João. Ele estava acompanhado de uma moça e solicitou um novo documento com o nome social.

Tudo correu normalmente na primeira etapa: a ficha foi preenchida, os dados foram confirmados, e ele foi direcionado para o setor de biometria.

Só que aí começou o problema.

Havia 7 mesas de biometria, e João sentou em uma ao lado da minha. Enquanto isso, uma atendente de outra mesa percebeu que uma ficha estava com nomes trocados. Provavelmente, a ficha do João havia sido emitida duas vezes, e outra pessoa (que não conferiu os dados) acabou indo para a biometria com a ficha errada.

A retaguarda (nosso setor de apoio) começou a procurar quem poderia estar com a ficha trocada, indo de mesa em mesa e perguntando:

— “Você não pegou uma ficha que seja do João?”

Foi o estopim.

João, que estava próximo, ouviu o “nome morto” e entrou em surto. Ele começou a gritar aos berros:

— “SUA TRANSFÓBICAAAA! EU VOU TE QUEBRAR PRA VOCÊ APRENDER A RESPEITAR PESSOAS TRANS! VOCÊ CHAMOU MEU NOME MORTO PRA ME CONSTRANGER!”

O surto foi tão intenso que ele começou a babar – e não era pouco. A blusa ficou encharcada. A moça que o acompanhava tentou acalmá-lo, mas nada adiantava. João ameaçava incontrolavelmente bater na atendente e gritava que “ela tinha que aprender a respeitar as pessoas trans”.

Todos os supervisores apareceram. Deram água com açúcar, tentaram acalmar a situação e ofereceram até entregar o documento em casa para evitar mais transtorno. Levaram João (em completo surto) para uma sala privada, onde finalmente conseguiram acalmá-lo, explicando que havia sido um mal-entendido e que não houve intenção de desrespeito.

No fim, o ego foi tão amaciado que ele desistiu de fazer um BO… mas foi embora ainda babando e resmungando pelo péssimo atendimento.

Leia mais textos de opinião de associadas da MATRIA: