Checagem de dados sobre a afirmação de que 90% das pessoas trans estariam na prostituição

90% das pessoas trans estão na prostituição?

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Como esse mito foi criado e por que ele não se sustenta em dados

Não há dados estatísticos confiáveis que sustentem a afirmação de que 90% das mulheres trans estejam na prostituição no Brasil.

Nos últimos anos, uma afirmação específica passou a circular amplamente no Brasil: a de que 90% das mulheres trans estariam na prostituição. Esse dado aparece em reportagens, relatórios internacionais, documentos oficiais e até em decisões judiciais. No entanto, essa afirmação não se sustenta em evidência empírica confiável.

Neste texto, apresentamos uma análise detalhada da origem desse número, demonstrando como ele foi construído, repetido e legitimado sem base metodológica, a partir de dossiês produzidos pela ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

De onde vem o dado de que “90% das pessoas trans estão na prostituição”?

A origem dessa afirmação remonta aos dossiês anuais publicados pela ANTRA desde 2018. A partir desse primeiro documento, o número passou a ser reproduzido de forma reiterada, apesar da ausência de pesquisas estatísticas representativas da população trans no Brasil.

A análise das fontes revela um padrão recorrente:

  • O dado não deriva de levantamentos nacionais probabilísticos
  • Não há descrição clara de metodologia
  • Não há definição da população pesquisada
  • Não há instrumentos de coleta verificáveis

Mesmo assim, o número passou a ser tratado como fato consolidado.

A falácia estatística do dado de “90% das mulheres trans na prostituição”

O principal problema desse dado é metodológico.

Amostras não representativas

Os números apresentados pela ANTRA são baseados em:

  • Entrevistas com ativistas
  • Relatos coletados em redes sociais
  • Questionários sem amostragem aleatória

Esses métodos não permitem inferir percentuais sobre uma população nacional, muito menos afirmar que 90% de um grupo exerce determinada atividade.

Confusão entre percepção e dado empírico

Em diversos trechos dos dossiês, a própria ANTRA utiliza expressões como “acreditamos que” ou “estima-se que”, deixando claro que se trata de percepção subjetiva, não de estatística validada.

A repetição do mesmo erro ao longo dos anos

Entre 2018 e 2025, os dossiês anuais repetem a mesma afirmação, citando uns aos outros como fonte, em um típico caso de referência circular.

Isso significa que:

  • Um dado não comprovado é publicado
  • Ele passa a ser citado por terceiros
  • Retorna como “fonte” em documentos posteriores
  • Ganha aparência de legitimidade sem jamais ter sido validado

O uso do argumento de autoridade

Outro mecanismo central é o apelo à autoridade institucional.

Ao se apresentar como “fonte confiável” sobre a realidade da população trans, a ANTRA passa a exigir que qualquer contestação apresente dados equivalentes, invertendo o ônus da prova.

No entanto, em ciência e em políticas públicas, quem faz a afirmação é quem deve demonstrá-la com evidências robustas.

O que mostram pesquisas independentes sobre trabalho e renda?

Quando analisamos pesquisas oficiais e estudos independentes, o cenário é muito diferente da narrativa dos 90%.

Dados do mercado de trabalho

  • Não existem dados nacionais representativos sobre a atividade remunerada de pessoas que se autodeclaram trans no Brasil.
  • Os levantamentos empíricos disponíveis, ainda que locais e com limitações metodológicas, apontam percentuais muito inferiores a 90%.
  • Os resultados indicam que a prostituição não é a atividade majoritária, com percentuais variando aproximadamente entre 14% e 34%, mesmo em amostras enviesadas em direção às populações mais vulneráveis.
  • Estudos oficiais também mostram predominância de inserção no mercado de trabalho formal, sem evidências de que a maioria das pessoas em ocupações informais esteja na prostituição.

Esses dados contradizem a narrativa de que a prostituição seria a principal fonte de renda dessa população.

Consequências da disseminação de dados falsos

A propagação de estatísticas infundadas gera impactos concretos:

  • distorce o diagnóstico dos problemas sociais;
  • influencia a adoção de políticas públicas baseadas em premissas incorretas;
  • reforça estigmas e generalizações;
  • orienta a alocação de recursos a partir de dados não verificáveis.

Quando políticas e narrativas públicas passam a se organizar em torno de diagnósticos falsos ou inflados, recursos institucionais, atenção política e espaço midiático são deslocados para sustentar essas narrativas. Como resultado, questões centrais enfrentadas pelas mulheres — como violência sexual, feminicídio, desigualdade no trabalho e sobrecarga do cuidado — deixam de ocupar a centralidade que exigem no debate público e na formulação de políticas.

Conclusão: por que dados importam

A análise mostra que o dado de que 90% das pessoas trans estariam na prostituição não tem base empírica confiável. Ele se sustenta na repetição, no apelo à autoridade e na ausência de verificação crítica.

Defender a verdade estatística é também defender políticas públicas mais eficazes e a luta histórica das mulheres brasileiras, que não pode ser construída sobre números fabricados.

Este texto integra uma série de análises da MATRIA dedicadas à verificação crítica de dados amplamente utilizados em debates públicos documentos oficiais e decisões institucionais.