Sobre bruxas e vilões
- Mátria Associação Matria
- há 24 horas
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Texto escrito por uma associada da MATRIA
Toda criança do século passado conhece a terrível vilã chamada Malévola. Com seu figurino sombrio e uma espécie de chapéu-de-chifre, a antagonista de Bela Adormecida é capaz de um gesto chocante: amaldiçoa uma criança no dia do seu batizado. O motivo? Ela não foi convidada para o festejo.
Em uma narrativa mais suave e mais recente, a Disney nos apresenta a infância de Malévola e busca explicar os motivos que a tornaram tão malvada e vingativa. Um detalhe curioso é que as gravações tiveram que contar com participação da própria filha da atriz Angelina Jolie – que interpretou a vilã – já que a outra criança que havia sido escalada para interpretar a Aurora (aquela que recebeu a maldição) chorava de terror ao ver Jolie caracterizada como Malévola.
Outro filme – este não é da Disney – vem fazendo sucesso com uma nova geração de crianças acostumadas aos live actions e às grandes produções musicais: Wicked – uma deriva da clássica história do Mágico de OZ, que foi lançada em 2024, e indicada a inúmeras premiações, ganhando duas estatuetas na última edição do Oscar.
Um lamentável episódio da vida real deu novos significados aos imaginários construídos a partir dessas produções.
Na última quarta-feira, uma mulher e uma criança foram impedidas de assistir ao espetáculo musical Wicked em São Paulo. O motivo? Malévola as desconvidou.
Uma pessoa do sexo masculino transidentificada – que, sendo trans, poderia ter escolhido qualquer nome para substituir o seu nome de registro e optou pelo nome Malévola (isso não é trivial!) – alegou ter ouvido o que considerou ser um insulto da mulher que terminou sendo expulsa do teatro junto com sua filha de 10 anos de idade. O insulto? Ela teria sido chamada de “homem”.
Em que pese o fato de que, de acordo com a acusada, o suposto insulto jamais teria ocorrido – e que a pessoa supostamente ofendida, Malévola, não quis registrar boletim de ocorrência – a cena de filme aconteceu. Só que os tempos são outros. Hoje, os filmes que mais assistimos duram, em média, 15 segundos e são gravados na vertical.
Malévola, que atua como influencer digital, decidiu que era insuportável estar no mesmo ambiente que aquela mulher e resolveu, como vingança, expor o seu desconforto ao vivo para os seus seguidores. De posse de um celular, gravou a acusação: “eu fui vítima de transfobia por aquela mulher” – disse, apontando o dedo na direção da acusada e de sua filha. O espetáculo atrasou. A plateia vaiou.
Na sequência, em outro corte de 15 segundos, Malévola julgou ser necessário explicar melhor para os seus expectadores o que estava ocorrendo. Então, com certo orgulho, disse: “eu fui vítima de transfobia e tô dando um show aqui”. Neste show, agindo de acordo com o script dos vilões, Malévola incentivou o público presente a gritar “tira, tira, tira” (no sentido de retirar a mulher acusada de transfobia), até que o ambiente se tornasse insuportável. Mãe e filha deixaram o local. A criança estava aos prantos. Malévola venceu.
A mãe, em vão, tentou explicar o ocorrido para os funcionários do teatro. Todos estavam atordoados com a fúria de Malévola que contagiou a plateia que, por sua vez, exigia a retirada da “transfóbica” daquele local. Assim, apesar do sentimento de injustiça, mãe e filha se retiraram da casa de espetáculos.
No palco, a encenação seguiu narrando a história das duas mulheres na terra de Oz. E, aqui, talvez seja necessário pedir desculpas aos leitores por mais um spoiler que se faz necessário para explicar a infeliz coincidência: a história de Wicked também se encerra com uma mulher sendo ofendida com acusações falsas.
O resultado? Ela se vê obrigada a ir embora.